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Francisco dá nova dimensão à diplomacia papal

Pontífice argentino tenta influenciar a política internacional e recuperar a relevância global da Igreja

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2015 | 02h01

Pelos corredores das Nações Unidas, um dos personagens mais requisitados nos últimos meses não tem sido embaixadores ou negociadores, mas um arcebispo. Com pouco mais de um metro e meio de altura e sempre andando de forma apressada, o representante do Vaticano na organização, Silvano Tomasi, é alvo de todas as atenções.

Ele já ocupa o posto há dez anos, mas foi em 2014 que passou a dar entrevistas coletivas, organizar reuniões e debates públicos e, acima de tudo, agir nos bastidores para aproximar diferentes governos. "Estamos envolvidos na busca do diálogo", disse ele ao Estado.

Ao caminhar com sua roupa tradicional entre diplomatas de terno e gravata, ouve cumprimentos às ações da Santa Sé e dezenas de pedidos e sugestões. A atitude de Tomasi não deixa dúvidas: a mediação do Vaticano para aproximar Cuba e EUA foi apenas parte de um projeto muito mais amplo da diplomacia papal e Francisco decidiu recuperar a relevância da instituição milenar no cenário político mundial.

De fato, Tomasi, falando em nome do pontífice em Viena há duas semanas, deixou claro que o papa não pretende se limitar a falar apenas quando é convidado. Em uma reunião sobre desarmamento nuclear, o arcebispo leu uma mensagem do chefe. "Os passos para um mundo livre das armas nucleares são limitados, insuficientes e congelados." O recado foi dado diante dos ministros das potências nucleares.

Este mês, Francisco publicará sua primeira encíclica e o assunto escolhido foi o meio ambiente, justamente no momento em que governos de todo mundo negociam um acordo sobre o clima. O papa quer influenciar no debate e alertar a humanidade que "a custódia da criação" é um dos maiores desafios que o planeta enfrenta.

Mesmo no caso de Cuba, a ação do Vaticano não se limitou à mediação com os EUA. Em Havana, o papa ordenou a seus representantes que usassem as instalações da Igreja para a realização de cursos que permitam a formação do espírito empresarial entre os cubanos. "O trabalho está sendo extraordinário", comentou ao Estado o ex-chefe do escritório de interesses dos EUA em Havana Michael Parlmy.

Diplomatas na Santa Sé garantem que Cuba não foi a única crise na América Latina que o papa tentou resolver. Francisco também atuou para que o impasse entre o governo de Nicolás Maduro e a oposição fosse superado.

A tarefa de pôr em prática a nova diplomacia foi entregue ao secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, experiente diplomata da Santa Sé e considerado profundo conhecedor da América Latina. Fluente em espanhol, o italiano ocupava o posto de núncio apostólico na Venezuela.

"O objetivo da diplomacia papal é construir pontes para promover o diálogo e usar as negociações como um meio de solucionar conflitos, espalhar a fraternidade, lutar contra a pobreza e construir a paz", declarou Parolin em artigo publicado este ano. Na exortação apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho, em latim), que serve como uma espécie de plano de governo de Francisco, o papa deixa claro que a Igreja tem um papel político e deve estabelecer o diálogo.

Um dos casos exemplares da ação da Igreja ocorreu no Haiti, onde, há dois anos, o processo eleitoral havia chegado a um impasse. Em seu primeiro anúncio de novos cargos eclesiásticos, no início do ano, Francisco nomeou cardeal o haitiano Chibly Langlois. A iniciativa tinha como objetivo dar ao mediador a capacidade de dialogar no mais alto nível político.

Um mês depois, coube ao novo cardeal costurar um acordo entre os diferentes partidos para estabelecer a forma de trabalho do Tribunal Eleitoral, um ponto fundamental para que as eleições pudessem ocorrer.

Apoiado pelo papa, Langlois promoveu diálogos que resultaram em um acordo político. As eleições foram marcadas para outubro e a Igreja ganhou um novo status na região. Ações de mediação também foram realizadas na Colômbia e em El Salvador.

O papa, no entanto, não se limita à América Latina. Outra prioridade é a China. Em 1951, Mao Tsé-tung cortou relações com o Vaticano. Hoje, os 12 milhões de cristãos na China vivem sem contato com a Santa Sé. Restabelecer essa relação passou a ser um dos objetivos do papa argentino, já pensando no impacto que isso poderia causar em uma eventual abertura do regime chinês.

No mês passado, o papa rejeitou um encontro com o dalai-lama, algo que seu predecessor, Bento XVI, também fez. Imediatamente foram feitas várias críticas contra Francisco. "Onde estão suas convicções", declarou o prêmio Nobel da Paz Jody Williams. "Quando líderes espirituais em Roma se curvam para a China, onde está a moralidade?", questionou.

A decisão de não receber o dalai-lama, porém, tem um sentido maior. A Santa Sé sente que está em um momento crítico das negociações com Pequim e não quer deixar nada atrapalhar o que seria sua maior ação diplomática em 60 anos.

Um sinal positivo foi dado em agosto, quando, ao retornar de uma viagem à Coreia do Sul, o avião papal foi autorizado pela primeira vez a sobrevoar o espaço aéreo chinês.

Em junho, o papa promoveu uma oração conjunta entre os líderes palestinos e israelenses e, na Síria, o Vaticano não hesita em apontar para o risco que corre a população cristã, principalmente diante dos extremistas islâmicos. Em uma carta de Natal, Francisco mandou uma mensagem especial aos cristãos do Oriente Médio, dando seu apoio e destacando que eles "não estão sozinhos".

Sua meta é a de promover o ecumenismo na região, como forma de garantir a paz. Mas, no fundo, a estratégia é a de garantir que, no futuro, o Oriente Médio não seja uma das poucas regiões do mundo sem a presença de cristãos, justamente em seu berço.

Francisco também já deixou claro que continuará a viajar em 2015. Em apenas dois anos, ele passou por Brasil, Turquia, Coreia do Sul, Albânia, França e ainda visitou a ilha italiana de Lampedusa para denunciar a situação dos imigrantes.

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