Francisco defende 'solução concreta' da Igreja para família não tradicional

Tolerância. Na primeira missa de seu giro de oito dias pela América Latina, papa pede no Equador oração por 'aquele que pareça impuro, escandalize ou espante', mas mantém a ambiguidade sobre o tema da união entre homossexuais e dos casamentos informais

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL / QUITO, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2015 | 02h02

Em sua primeira missa na viagem de oito dias pela América Latina, o papa Francisco foi enfático ao pedir soluções concretas para os "desafios da família", mencionando um pedido de oração por aquele "que pareça impuro, escandalize ou espante".

As palavras diante de 600 mil fiéis em Guayaquil foram interpretadas como um chamado à tolerância e até um recado ao presidente Rafael Correa, que já foi criticado por difundir piadas homofóbicas.

Embora tenha ganhado projeção por suas ideias progressistas na defesa da igualdade social e de países e pessoas distantes dos centros de poder, Francisco sempre foi rígido em temas morais. Sua maior desavença com o governo argentino de Cristina Kirchner foi em razão da aprovação, em 2010, do casamento gay. Francisco disse então que toda criança merecia ter um pai e uma mãe. "Ele é inflexível nisso, não se deve esperar que mude um dogma da Igreja", diz Andrés Beltramo, autor de La reforma en Marcha, sobre as ideias do papa.

Mas essa rigidez não impediu Francisco de defender a convivência com homossexuais. No Paraguai, ultima escala da viagem pela América Latina, ele tem agendada uma reunião com um representante da comunidade gay local. "O papa é ambíguo sobre temas que para muitas pessoas são muito sensíveis. Parece-me que ele abre espaço para o diálogo com o Vaticano. As famílias devem ser diversas como é o mundo", avalia Efrain Soria, coordenador da Fundación Equatoriana Equidad, que defende os direitos GLBTI.

Depois de chamar à oração pelo "impuro", Francisco pediu que "Deus possa transformá-lo em milagre". "Não acho que tenha com isso se referido a tornar heterossexual um gay, pois ele nasce assim, essa é sua condição. O 'milagre' pode ser a transformação do homofóbico, pois isso é cultural e pode ser mudado", completa Soria.

Em agosto de 2014, pares equatorianos de mesmo sexo passaram a ter os mesmos direitos que casais convencionais garantidos pela Constituição. O presidente Correa saudou o fato como um avanço social, mas, católico de linha conservadora, disse ser contra o casamento gay e a adoção por esses casais.

"Esse papa tenta fazer algumas mudanças na Igreja, romper crenças muito arraigadas, como a exclusão de divorciados e gays. Mas eles falam de forma atravessada. Francisco pode também ter mandado um recado a Correa, um esquerdista conservador em temas morais, conhecido por suas piadas homofóbicas", diz o coordenador em Quito no núcleo de ciências políticas da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), Simón Pachano.

O tema da missa papal de Guayaquil está ligado ao sínodo sobre família marcado para outubro, no Vaticano, quando os bispos devem discutir temas como a acolhida aos gays, divorciados e casais unidos informalmente.

Para a doutora em antropologia cultural María Amelia Vitere, investigadora da Universidade de San Francisco de Quito, os desafios familiares aos quais se referiu o papa são também a desagregação causada por fatores econômicos. "Não é coincidência que ele tenha feito esse discurso em um país com 3,4 milhões de emigrantes. As famílias de composição tradicional no Equador, como em outros países da região, são minoria", avalia a especialista.

Mãe solteira, Magerly López era uma das primeiras na fila de fiéis que esperavam ontem a abertura das portas do Parque Bicentenário, onde às 10h30 de hoje (12h30 em Brasília) Francisco faz sua segunda e última missa no país, em Quito. Ela era das poucas sem barraca. "Se chover, peço para entrar em alguma dos vizinhos", disse. Sua meta era estar o mais perto do papa, para conseguir "uma bênção bem forte" para a menina de 3 meses, a quem amamentava, e para ela, de 15 anos.

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