'Francisco não deve abordar disputa com o Chile'

Para teólogo espanhol que vive na Bolívia desde 1982, visita do papa a local da morte de jesuíta, vítima da ditadura, reforça compromisso com pobres e direitos humanos

Entrevista com

Víctor Codina

Luciana Nunes Leal, Enviada Especial / Santa Cruz de la Sierra, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2015 | 02h02

Um dos momentos mais simbólicos da visita de dois dias do papa Francisco à Bolívia está previsto para o fim da tarde de hoje. A caminho do centro de La Paz, o papa fará rápida visita ao local onde, em 22 de março de 1980, foi encontrado o corpo do padre jesuíta Luís Espinal, torturado e assassinado durante a ditadura do general Luis García Meza. "Espinal é para a Bolívia um símbolo da luta pela liberdade e direitos humanos. Essa visita tem grande valor simbólico para o povo e para a Igreja Católica da Bolívia", disse o teólogo jesuíta Víctor Codina, espanhol que vive desde 1982 na Bolívia. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual o significado desta viagem do papa à América Latina, em especial à Bolívia?

Francisco é latino-americano, conhece bem a região e sabe que é um continente majoritariamente católico, mas que necessita reavivar a fé. Sabe também que é um continente pobre, com grandes desigualdades sociais, que necessita de profundas reformas. A viagem do papa à América Latina responde a seu desejo de reforma da Igreja e da sociedade, desejo de comunicar a alegria do Evangelho, a abertura da Igreja ao mundo, uma Igreja de portas abertas, que sai para as ruas, missionária, que favorece os pobres.

O sr. espera alguma mensagem específica do papa à Bolívia?

Existem muitas expectativas, algumas um pouco irreais. Esperamos que ele anime o povo boliviano a trabalhar unido, sem polarizações, em busca de um país justo e pacífico, respeitoso das diversidades culturais, com um progresso que não danifique a terra nem discrimine os fracos.

E temas sensíveis, como a disputa marítima com o Chile e a produção de cocaína?

Não creio que ele aborde a questão marítima, mas sim que pretenda incentivar o diálogo construtivo entre Bolívia e Chile em busca de soluções que olhem para o futuro. Em relação às drogas, o papa sabe muito bem que uma coisa é o uso da folha de coca, medicinal e tradicional. Outra é a cocaína. É possível que condene o narcotráfico e o vício, sem condenar o uso medicinal da folha de coca.

Que outros compromissos do papa na Bolívia o senhor destacaria?

Depois que descer no Aeroporto de El Alto, ele fará parada perto do lugar onde foi encontrado o corpo do padre jesuíta assassinado Luís Espinal (1932-1980). Espinal é para a Bolívia símbolo da luta pela liberdade e direitos humanos. Depois da beatificação do monsenhor Romero, em El Salvador, o povo boliviano começa a pedir que também Espinal seja beatificado como mártir da fé unida à justiça. A ida do papa (ao local onde Espinal foi encontrado) tem grande valor simbólico para o povo.

 

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