Paolo Aguilar/EFE
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Francisco Sagasti, o estreante na política que assume a presidência do Peru

Ex-funcionário do Banco Mundial cuja aparência lembra a do personagem 'Dom Quixote' chega à presidência com o enorme desafio de administrar um país abalado por uma crise política e uma pandemia devastadora

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2020 | 16h27
Atualizado 17 de novembro de 2020 | 19h27

LIMA - Francisco Sagasti, um ex-funcionário do Banco Mundial cuja aparência lembra a do personagem 'Dom Quixote', assumiu nesta terça-feira, 17, a presidência do Peru, o terceiro a ocupar o cargo em oito dias. Ele assume com o enorme desafio de administrar um país abalado por uma crise política e uma pandemia devastadora que provocou uma forte recessão.

Escolhido na segunda-feira como novo presidente do Congresso por seus pares, Sagasti tomou posse em uma sessão solene em Lima.  Ele deverá governar até 28 de julho de 2021, quando haverá eleição. 

"Juro pela pátria e por todos os peruanos que vou exercer fielmente o cargo de presidente da república para completar o período constitucional 2016-2021, que vou cumprir e fazer cumprir a Constituição", disse ele, na solenidade de posse.

Aos 76 anos, Sagasti é um estreante na política e no Parlamento, do qual é membro desde março de 2020 como um dos nove legisladores do partido Morado (centrista).

“Dom Quixote Sagasti é o novo presidente do Peru!!!! Agora vamos trabalhar contra a corrupção e a crise política!!!”, tuitou a deputada de esquerda Rocío Silva Santisteban para saudar a eleição do novo presidente do Congresso e do país.

Sua barba grisalha contribui para a semelhança com Dom Quixote, embora os desafios de governar o Peru pareçam gigantescos em comparação aos moinhos de vento enfrentados pelo famoso personagem do escritor espanhol Miguel de Cervantes.

O perfil moderado de Sagasti surgiu como uma carta de consenso entre as novas bancadas do Congresso, a maioria populista.

Seu nome permitiu contornar a crise que começou há uma semana, quando esse mesmo Parlamento destituiu Martín Vizcarra e acendeu o estopim de protestos massivos que deixaram dois mortos e cem feridos pelas ruas do país.

Como líder da bancada do Partido Morado, Sagasti era contra a destituição de Vizcarra. No Congresso, presidia a Comissão de Ciência, Inovação e Tecnologia.

Sagasti começou na política partidária em 2016 com a criação do Partido Morado, do qual é cofundador. 

Formado em engenharia industrial pela Universidade Nacional de Engenharia de Lima, Sagasti recebeu o doutorado em ciências sociais nos Estados Unidos pela Pennsylvania State University. 

Trabalhou no Banco Mundial como consultor e chefe da Divisão de Planejamento Estratégico no fim dos anos 80 e lecionou na Universidade do Pacífico, na Pontifícia Universidade Católica do Peru, no Instituto de Negócios de Madri e na escola de Negócios de Wharton, na Pensilvânia.

Neto de um herói da guerra 

Nascido em Lima em 10 de outubro de 1944, Sagasti é neto de Francisco Sagasti Saldaña, integrante do Exército peruano que derrotou as forças chilenas na Batalha de Tarapacá em novembro de 1879.

Sua família materna é de origem austríaca e radicada no Chile, onde vive. 

Sagasti foi um dos 700 reféns do comando terrorista do MRTA que invadiu a residência do embaixador japonês em Lima em dezembro de 1996 (até abril de 1997), onde ficou por cinco dias antes de ser libertado.

Receita de Strauss 

A música é um dos seus maiores hobbies: toca piano, violão, compõe canções e adora música clássica. 

Além da semelhança com Dom Quixote, Sagasti é uma espécie de Mick Jagger político, já que não parece ter a idade que tem. 

A receita para a jovialidade é que, além de se exercitar e se alimentar bem, Sagasti segue "a receita de Johann Strauss: Vinho, amigas e música”, explicou em uma entrevista em fevereiro de 2017 à jornalista Tamara Wong Fuster. 

Casado três vezes e pai de sete filhos, o novo presidente peruano afirma já ter cumprido o "serviço conjugal obrigatório" por 37 anos.

Terceiro em oito dias 

Sua eleição, em votação em que era o único candidato, fez dele automaticamente o novo presidente do Peru, o terceiro a ocupar o cargo em oito dias. 

A crise foi desencadeada em 9 de novembro pelo próprio Congresso, que destituiu o popular presidente Martín Vizcarra (centro-direita) num processo relâmpago de impeachment, sob a acusação de suposta corrupção quando era governador em 2014. A denúncia está sendo investigada pelo Ministério Público e a Justiça proibiu o ex-presidente de deixar o Peru por 18 meses. 

No dia seguinte, o chefe do Congresso, Manuel Merino, também de centro-direita, tomou posse, mas milhares de cidadãos indignados, principalmente jovens, saíram às ruas para protestar contra o que chamaram de "golpe de Estado".

Os protestos, que duraram cinco dias, foram reprimidos com violência pela polícia, deixando dois mortos e mais de cem feridos.

A bancada do centrista Partido Morado de Sagasti foi a única que votou em bloco contra a destituição de Vizcarra, o que contribuiu para que assumisse a liderança do novo governo de transição até 28 de julho de 2021, dia do bicentenário da Independência do Peru.  As eleições presidenciais e legislativas estão convocadas para 11 de abril.

Beneplácito de Vizcarra 

A eleição de Sagasti foi saudada na segunda-feira por centenas de manifestantes reunidos em frente ao prédio do Congresso, em outros pontos de Lima e em várias cidades.

O parlamentar disse que as prioridades de sua presidência interina de oito meses serão a pandemia do coronavírus (o país acumula 930 mil infecções e 35 mil mortes), a recessão econômica, o combate à corrupção e à insegurança, além da realização de eleições limpas.

É basicamente a mesma agenda promovida por Vizcarra, que saudou a eleição de Sagasti, afirmando que ele “terá condições de suportar a difícil situação do país”. O presidente deposto havia denunciado a falta de "legalidade e legitimidade" de Merino. 

Abandonado pelo Congresso, Merino renunciou no domingo, cinco dias depois de assumir o cargo, encurralado por protestos nos quais Inti Sotelo, de 24 anos, e Jack Pintado, de 22, agora chamados de "Heróis do Bicentenário", morreram. 

O placar da votação na qual foram escolhidos na mesma chapa Sagasti e os três novos vice-presidentes da mesa diretora do Congresso foi de 97 votos a favor e 26 contra. Com a nova composição, o país espera encontrar uma saída para a crise política, de legitimidade e de violência repressiva.

"O que oferecemos? O que falta ao nosso país neste momento, confiança", disse Sagasti depois de ser eleito, ocasião em que lamentou a morte dos dois jovens. "Quando um peruano morre, e mais ainda se é jovem, todo o Peru está de luto. E se ele morre defendendo a democracia, a indignação se soma ao luto", afirmou em um discurso emocionado, contrastando com a grosseria de Merino. 

Com Sagasti como presidente, a liderança do Congresso será assumida pela esquerdista Mirtha Vásquez, que também votou contra a destituição de Vizcarra - ao contrário de outros em seu partido. 

Porém, ninguém pode prever o que o Congresso fará no governo de Sagasti, depois de frequentes confrontos com Vizcarra nos últimos dois anos e com seu antecessor Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018).

O fragmentado Parlamento é dominado por quatro partidos populistas. Antes, o fujimorismo tinha hegemonia, mas perdeu-a em janeiro nas eleições extraordinárias depois que Vizcarra dissolveu constitucionalmente o Congresso para superar outra crise, em setembro de 2019. /AFP e EFE 

 

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