Franco sobe tom visando à eleição de 2013

Presidente paraguaio mobiliza seu Partido Liberal falando de soberania e nacionalismo

HUGO RUIZ OLAZAR, FRANCE PRESSE, ASSUNÇÃO, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h05

O presidente do Paraguai, Federico Franco, está mobilizando a base do Partido Liberal, visando as eleições de 2013, ao agitar a bandeira da soberania e do nacionalismo paraguaio com uma atitude de confronto com Argentina e Brasil, seus poderosos vizinhos que se recusam a reconhecer a legitimidade de seu governo.

"A decisão não tem volta. Temos direito a 50% de energia de Itaipu e Yacyretá", afirmou Franco na sexta-feira, em entrevista coletiva em Assunção, reafirmando o que disse durante a semana, que o Paraguai usará a metade da energia que lhe corresponde das duas usinas binacionais construídas no Rio Paraná, a primeira em conjunto com os brasileiros e a segunda com os argentinos. "Não passaremos a usar nossas dez turbinas de Itaipu do dia para a noite, mas vamos nos preparar para transformar o Paraguai em um polo de desenvolvimento", disse.

Alguns especialistas acreditam que o discurso de Franco é um reflexo da marginalização imposta por Brasília e Buenos Aires. "É uma situação que não vemos desde a Guerra do Paraguai", disse o ex-chanceler Carlos Mateo Balmelli, ligado ao Partido Liberal.

Mudança. Mateo, um diplomata que foi diretor de Itaipu por quase dois anos, durante o governo do então presidente Fernando Lugo, disse que concorda com Franco a respeito de uma nova política que faça o Paraguai cobrar mais caro pela energia vendida ao Brasil e à Argentina. "A partir de agora, o Paraguai tem de pensar em uma política externa fora do Mercosul, e não mais dentro do bloco", disse Mateo, que defende o uso da energia para estimular a instalação de indústrias no país.

Para o advogado Aaron Ruiz Diaz, Franco, deve criar uma comissão multipartidária, técnica e de caráter jurídico para debater o assunto com o Itamaraty. De acordo com Gustavo Codas, ex-diretor de Itaipu, que substituiu Mateo na direção da usina, as declarações de Franco são uma tentativa de justificar as negociações com a companhia canadense Rio Tinto Alcan, mineradora e processadora de alumínio.

Nacionalismo. A empresa estaria interessada em deixar o Brasil e se instalar no Paraguai. Para isto, negocia com Franco o uso de algumas turbinas de Itaipu durante os próximos 20 ou 30 anos a um preço irrisório, segundo Codas. "Na verdade, Franco utiliza um discurso pseudo-nacionalista para encobrir o que está realmente acontecendo. É muito suspeito que sai daí um acordo entre uma empresa que é bastante questionada no Brasil e um governo que surgiu de um golpe", disse Codas. "Franco não será capaz de fazer nada. No Paraguai, não há rede elétrica, não há infraestrutura ou recursos para promover o desenvolvimento. É um discurso para aparecer diante do público como um nacionalista."

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