François Hollande, o homem que sempre sorri

Cenário: Mathieu von Rohr / Der Spiegel

O Estado de S.Paulo

03 Maio 2012 | 03h06

No dia seguinte a sua vitória no primeiro turno, François Hollande saiu de um jato particular no aeroporto de Quimper, pequena cidade na Bretanha. Estava exultante: "Recebi mais votos do que Mitterrand em 1981". Mantinha seus ralos cabelos penteados de uma maneira a cobrir sinais de calvície e, como sempre ocorre quando conversa, sorria.

A campanha contribuiu com alguma coisa no caso de Hollande. Ele iniciou a disputa como um candidato despercebido e às vezes desajeitado. Ainda tem alguma coisa de contador, mas também tem um ar presidencial. Nos últimos meses, cresceu imensamente. Um amigo que conhece Hollande desde 1985 o estava esperando para lhe dar boas-vindas no café do aeroporto. Era Bernard Poignant, prefeito de Quimper. "Lembro-me quando ele estava muito distante da posição em que está hoje", disse Poignant, visivelmente comovido. "As pessoas já o davam como candidato eliminado e enterrado".

Naturalmente, Hollande lembra-se do dia em que renunciou como líder do partido, há três anos e meio. Sua ex-companheira Ségolène Royal perdera a eleição de 2007 contra o presidente Nicolas Sarkozy e o Partido Socialista quase se desintegrou. Na época, parecia absurdo pensar que Hollande poderia um dia ser presidente. Agora, Ségolène tem feito campanha a favor dele com relutância. As pesquisas dão uma clara vitória para o socialista no segundo turno, no domingo. Se isso ocorrer, a chanceler alemã Angela Merkel terá um novo parceiro na Europa. Ele já anunciou que pretende pôr fim à política de austeridade imposta por ela e deseja que a Europa estimule o crescimento para vencer a crise. Sua eleição é fundamental para o continente inteiro.

Enigmático. O que surpreende é que ninguém parece saber quem é realmente Hollande. Mesmo Poignant, seu velho amigo, demonstra um pouco de incerteza: "Tenho o mesmo sentimento com relação a ele. Hollande tem um lado misterioso. Sempre foi assim". O que o distingue como político é sua capacidade de mostrar empatia. Ele sabe o que as pessoas desejam ouvir. Na quarta-feira da semana passada, Hollande discursou para os operários de uma fábrica na cidade de Montataire, no norte da França, que estão prestes a perder seus empregos. "Estou aqui", eles lhes disse. "Mas estar aqui é fácil. O importante é retornar!" Os homens que o acolheram com ceticismo concordaram. Fazer com que as pessoas sintam que você as compreende é um dom. Hollande tem esse dom, ao contrário de Sarkozy, para quem interagir com os cidadãos é um peso.

Sua fragilidade está no fato de ser basicamente um tecnocrata, um homem de cálculos, o que frequentemente o atrapalha, tanto nas entrevistas como nos discursos. Ele é eficaz quando pronuncia discursos carregados de emoção e exorta o passado ilustre da França, os legados da Revolução Francesa, a Resistência e o socialismo. Mas depois ele se perde nos detalhes da sua plataforma, usando frases batidas.

Hollande não tem assessores. É o seu próprio coordenador de campanha e sua estratégia é simples: parecer mais presidencial do que presidente. Para atingir isso, recorre a François Mitterrand. Quando discursa, copia os gestos e a maneira de falar de Mitterrand. Ninguém pode dizer com certeza que tipo de presidente será. Tem a reputação de ser pragmático, o que indica que poderá se entender melhor com Merkel do que se supõe hoje. Embora seja visto como um socialista moderado, sua visão é tradicionalmente de esquerda. Para ele o crescimento é algo que deve ser deixado para o Estado - ou a Europa e seu banco central. Defende um "orçamento sério, mas contra a austeridade a vida inteira". Sua plataforma inclui ideias caras que podem resultar em 20 bilhões de despesas adicionais. Se ele terá a força para reformar a França de baixo para cima, ou se vai se tornar um Jacques Chirac de esquerda, ou seja, um regente passivo, é o que veremos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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