Fraqueza de facções políticas favorece alianças de oportunidade na Colômbia

Para evitar a vitória do candidato do ex-presidente Álvaro Uribe, prefeito de Bogotá, cassado com o aval de Santos, agora apoia o presidente, que tenta a reeleição; por outro lado, conservadora já antecipou que contrariará seu grupo e apoiará Zuluaga

Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial / BOGOTÁ, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2014 | 02h07

Há dois meses, o prefeito de Bogotá, o ex-guerrilheiro Gustavo Petro, acusado de violar leis de mercado ao mudar regras para coleta de lixo, foi cassado com o aval do presidente Juan Manuel Santos. Ficou sem emprego 35 dias. Voltou ao cargo quando a repercussão do afastamento afetava a campanha do candidato à reeleição.

Na reta final da eleição de domingo, eles não só fizeram uma trégua. Viraram aliados, num movimento que surpreendeu até analistas políticos acostumados a creditar aproximações de ocasião à fragilidade dos partidos políticos colombianos.

Ao assinar a destituição de Petro em 19 de março, Santos desafiou um parecer da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que recomendava mantê-lo no cargo após uma série de medidas judiciais contrárias ao prefeito iniciada em dezembro. O presidente elogiou a eficácia da Justiça colombiana e pôs no lugar do prefeito o ministro do Trabalho, Rafael Pardo. "Santos planejava, ao afastar o prefeito, conquistar votos da classe média alta de Bogotá, onde ele não tem boa votação. Mas, diante do desgaste mútuo, eles concluíram que podiam se ajudar. Ao apoiar o presidente, Petro, mesmo sendo de esquerda, sabe que Santos não insistirá na sua destituição", diz o analista político Miguel García, da Universidade de los Andes.

Outro apoio inesperado a Santos partiu de seu rival no segundo turno na eleição de 2010. Antanas Mockus, o filósofo que mostrou os glúteos para universitários e vestiu trajes de super-herói durante a campanha, deixou o Partido Verde que ajudou a criar e deu apoio público a quem qualificava de conservador.

Prefeito de Bogotá (1995 a 1997 e 2001 a 2004), ele argumenta que uma vitória de Óscar Zuluaga, que segundo as últimas pesquisas irá para o segundo turno com Santos, significaria o fim do diálogo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) iniciado em 2012.

Zuluaga é o candidato de Álvaro Uribe, presidente que ordenou a maior ofensiva contra a guerrilha em dois mandatos, de 2002 a 2010. Ele deixou o cargo com 80% de aprovação e a imagem do homem que devolveu a segurança ao país - os principais líderes das Farc morreram nesse período.

Personalista, Uribe teve as pretensões de mudar a Constituição para concorrer a um terceiro mandato abortadas na última hora pela Suprema Corte. Antes que decidisse a quem apoiar, Santos, o ministro de Defesa que concretizou suas ordens contra a guerrilha, lançou-se candidato e venceu.

A ruptura entre os dois levou Uribe, criado no histórico e diminuído Partido Liberal, a abandonar o Partido de la U (um jogo com a inicial das palavras Unidad e Uribe) e criar outra dissidência, o Centro Democrático, mais à direita, que concentrou o uribismo.

"Pesquisas mostram que um partido na Colômbia fica popular depois que tem seu candidato eleito. E isso não tem a ver com ideologia. Ocorreu em 2011 com Petro, que tinha abandonado o Polo Democrático e criado um partido só para disputar a prefeitura. E ocorre agora com o Centro Democrático, de Zuluaga, que foi criado há um ano com base na popularidade de Uribe", afirma García.

Segundo a presidente da organização Transparencia por Colombia, Elisabeth Ungar, o país sofre com os efeitos uma reforma constitucional de 1991, que terminou com o duopólio dos partidos Conservador e Liberal.

"De uma vez, foram criadas 23 legendas e chegamos ao outro extremo. O resultado são partidos e coligações frágeis, com projetos de curtíssimo prazo, criados para uma só eleição. A candidata do Partido Conservador à presidência, por exemplo, deve apoiar Zuluaga, enquanto o partido em si já disse que apoiará Santos", afirma a cientista política. "Não estamos num país sério. Isso não pode ser uma democracia séria."

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