Fratura social está em todos os lados

Divisão até mesmo em momentos de grande comoção nacional evidencia realidade da França

Andrei Netto, correspondente, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2015 | 02h01

Minutos antes das 12 horas de terça-feira, franceses espalhados por todo o território nacional se preparavam para um instante solene de homenagem às vítimas dos atentados de Paris, ocorridos três dias antes. Ao meio dia, a França se uniria em um minuto de silêncio que, além de lembrar das vítimas, deveria unir o país na rejeição ao extremismo religioso e na condenação dos atos terroristas perpetrados em nome do grupo terrorista Estado Islâmico (EI).

No mesmo momento, em um hospital no Boulevard de Port Royal, no centro de Paris, um imã de origem árabe, com uma apostila em mãos, pedia ao filho de cerca de 7 anos que recitasse cinco pilares do Islã. Essa cena foi presenciada pela reportagem do Estado. Em certo momento, a lição foi interrompida por um telefonema de um muçulmano morador de Montreuil, na periferia de Paris, que buscava conselhos para interpretar melhor os acontecimentos.

Logo o diálogo avançou a um ponto surpreendente: "Você me diz que atacar a França é legítimo pelo que se faz na Síria. Eu considero isso covardia. Onde está o mártir?", questionou o imã em determinado momento, completando a seguir: "Os argumentos que eles usam são vazios. Eles dizem: 'Você vai para a Síria, você morre como mártir e vai ao paraíso'. A essas pessoas você deve responder: 'Faça o que você quiser. Eu tenho a minha família e minha vida aqui'".

Ao término da conversa, o minuto de silêncio solene realizado em toda a França já havia acabado, sem que nem um, nem outro tivessem respeitado um instante sequer de introspecção.

A conversa entre o imã e seu interlocutor é representativa em vários aspectos do que se passa na França. Em primeiro lugar, ela ilustra o descaso de um segmento da população pela sorte de vítimas do terrorismo. É possível que o interlocutor do outro lado da linha não tenha se dado conta do minuto de silêncio, mas o imã presenciou a solenidade e o recolhimento de outras pessoas por uma parede envidraçada que dava para a rua, onde carros e pessoas pararam durante o ato.

Em segundo lugar, o diálogo evidencia que existe um debate entre comunidades marginalizadas da França sobre se é legítimo ou não atacar o próprio país. Nas periferias da capital, há quem duvide se atentados como os perpetrados contra Charlie Hebdo ou o supermercado judaico, em janeiro, ou contra o Bataclan, em novembro, devem ser condenados. Essa dúvida é o sinal mais grave de que grupos como o EI têm na França e na Europa um manancial de radicalismo.

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