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Fraudes são internacionais

A França só fala de fraudes e corrupção, paraísos fiscais, lavagem de dinheiro, bancos na Suíça e em Cingapura, sigilo bancário e dumping fiscal.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2013 | 02h06

Isso em razão do escândalo que na semana passada depois que uma das figuras mais poderosas da França, o ministro do Orçamento, Jérôme Cahuzac, foi surpreendida "com a mão no pote de doce". Que doce? Cahuzac teria contas no exterior. Quanto dinheiro nessas contas? Ah! Difícil de dizer. Talvez 600 mil. Talvez 15 milhões.

No Palácio do Eliseu e nos ministérios, silêncio e sangue frio. Ao menos de fachada. Na verdade, é só pânico e desespero, noite e brumas. Nos bastidores do poder, as acusações engrossam como tempestades de verão. Ninguém confia em ninguém. Os jornalistas correm de um lado para outro. Mal topam com um rumor, apoderam-se dele e o publicam por mais estúpido que seja. O jornal de esquerda Libération sugeriu ontem que um outro ministro vedete, o chanceler Laurent Fabius, também teria contas clandestinas de marajás.

O governo, muito abalado pelo escândalo, passou ao contra-ataque. Como fez (o ex-presidente Nicolás) Sarkozy há quatro anos, como havia anunciado o atual presidente François Hollande há um ano, vamos atacar, bandeiras ao vento, o dinheiro sujo. Vamos derrotar o polvo financeiro.

Seremos puros, implacáveis e ferozes. Os políticos serão vigiados como ladrões. Eles terão de declarar seu patrimônio. Seremos transparentes como vidraças, puros como cordeiros.

Tanto melhor. Só que a corrupção é como o comércio e como o dinheiro: é global. Apertar as cravelhas na França é uma boa coisa. Mas é no nível internacional que seria preciso atacar. Ora, a cada reunião do G-8, a cada reunião do G-20, os responsáveis mais poderosos do planeta vociferam contra a imoralidade financeira e nada muda, nada acontece.

Será que o escândalo Cahuzac conseguirá provocar um sobressalto? É o que se espera, ainda mais que esse caso explode no momento em que uma investigação internacional, dita "Offshore Leaks" (em referência ao célebre e corrosivo WikiLeaks) começa a publicar as transações financeiras impuras tramadas à sombra e o nome de uma centena de responsáveis por essas práticas.

Como reagiram os paraísos fiscais a essas ofensivas? Estão pouco se lixando. A revista financeira suíça Bilan fala de um "grande petardo molhado". E a City (o distrito financeiro) de Londres permanece fria, indiferente. No entanto, a Grã-Bretanha está bem no centro da maior rede de paraísos fiscais do mundo, rede que inclui a própria City, mas também muitos territórios offshore que são (ou foram) dependentes da Grã-Bretanha (Ilhas Cayman, Ilhas Virgens, Gibraltar, Hong Kong, Irlanda, etc.).

De seu lado, a União Europeia se coloca em pé de guerra contra o dinheiro sujo. Há cinco anos, ela se dotou de um instrumento: uma diretriz permitindo a troca automática de informações sobre os juros das contas de poupança de cidadãos europeus nos 27 países, seja qual for o seu lugar de residência.

Qual o montante levantado pela evasão fiscal a cada ano na Europa? Sete anos de orçamento da União Europeia.

Tradução de Celso Paciornik.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris.
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