EFE/EPA/STR
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Frederik de Klerk, presidente branco que acabou com o apartheid na África do Sul, morre aos 85 anos

Político foi presidente entre 1989 e 1994; antes de chegar ao poder e libertar Nelson Mandela, ele defendia o regime racial sul-africano

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2021 | 08h24
Atualizado 11 de novembro de 2021 | 15h37

Frederik Willem de Klerk, ex-presidente da África do Sul que ganhou o prêmio Nobel da Paz em 1993 por sua participação no fim do apartheid, morreu nesta quinta-feira, 11, aos 85 anos.

O político sul-africano governou o país entre 1989 e 1994 e foi o responsável por libertar o ícone da luta contra o apartheid , Nelson Mandela, e outros prisioneiros políticos.

"É com grande tristeza que a Fundação FW de Klerk anuncia a morte do ex-presidente FW de Klerk de forma tranquila em sua residência de Fresnaye esta manhã, depois de uma lutar contra o câncer", anunciou a organização em um comunicado.

Durante 27 anos, Mandela foi prisioneiro do apartheid. No fim dos anos 1980, ele negociou o fim do governo racista com de Klerk. Como presidente, de Klerk anistiou Mandela em 1990. Quatro anos mais tarde, Mandela se tornaria o primeiro presidente democraticamente eleito da África do Sul

Ele foi o nono, e possivelmente o último, em uma longa linha de presidentes brancos da África do Sul, e desmantelou o sistema de apartheid que ele e seus ancestrais africâneres, descendentes de colonos holandeses e huguenotes que chegaram ao sul da África no século XVII, ajudaram a implementar no país.

Membro de uma importante família de africâneres, de Klerk defendeu veementemente a separação das raças durante sua longa ascensão na hierarquia política.

Mas assim que assumiu a presidência em 1989, ele surpreendeu sua nação profundamente dividida, e o mundo em geral, ao reconsiderar as políticas racistas da África do Sul.

A África do Sul havia se tornado um pária aos olhos do mundo na década de 1980, por causa do apartheid, e sua economia definhava por causa de sanções internacionais, e de Klerk argumentou que o futuro do país dependia de um novo curso.

“Ele não disse que o apartheid era ruim ou imoral, mas decidiu que não iria funcionar”, disse Herman J. Cohen, que conversou com de Klerk durante aquele período tumultuado como principal conselheiro do Departamento de Estado americano na África.

As desavenças entre de Klerk e Mandela

Com sua teia de leis que distribuíam direitos, privilégios e até tamanhos de refeições em prisões com base na cor da pele, o apartheid não foi fácil de desfazer, exigindo anos de ação legislativa. Mas quando de Klerk, em 1990, anunciou o levantamento da proibição de 30 anos do Congresso Nacional Africano (CNA) e a libertação da prisão de seu líder mais proeminente, Nelson Mandela, ele deu início a uma transformação tão poderosa que rapidamente deu fim ao apartheid.

Mandela derrotaria com firmeza de Klerk nas eleições presidenciais apenas quatro anos após conquistar sua liberdade. Mesmo quando Mandela convidou de Klerk para seu governo de transição como segundo vice-presidente, de Klerk lutou com a redução de seu papel e acabou desistindo.

Os esforços de Frederik de Klerk para refazer o Partido Nacional, dominado por brancos e que seu avô ajudou a criar, para uma organização multirracial com a influência do CNA fracassou. Frustrado com as tensões partidárias internas e as críticas da Comissão de Verdade e Reconciliação da África do Sul, que investigou o passado racista do país, de Klerk anunciou sua aposentadoria da política em 1997.

Frederik de Klerk e Mandela dividiram o prêmio da paz em 1993 por seus esforços conjuntos para reconstruir o país, embora sua relação fosse menos harmoniosa do que parecia. Em sua autobiografia, A Última Jornada - Um Novo Começo, de Klerk reclamou que se sentiu subestimado e às vezes abertamente atacado por Mandela durante as celebrações em torno do prêmio.

“Eu fervia de raiva”, escreveu ele sobre um discurso de Mandela feito na Suécia após a cerimônia de premiação. “Foi só com o maior autocontrole que mais uma vez consegui morder a língua e não quebrar de uma vez por todas a ilusão de que havia uma relação cordial entre mim e Mandela.”

Ele acrescentou: “Foi irônico que nós dois tivéssemos viajado tanto para receber o maior prêmio do mundo pela paz e reconciliação - enquanto o relacionamento entre nós era caracterizado por tanto veneno e suspeita”.

Em sua própria autobiografia, Long Walk to Freedom, Mandela caracterizou seu relacionamento com de Klerk como algo nascido da necessidade: “Para fazer as pazes com um inimigo, é preciso trabalhar com esse inimigo, e esse inimigo se torna nosso parceiro.”

Embora os dois homens tenham se tornado símbolos de harmonia racial, com suas imagens sendo vendidas nas lojas sul-africanas em camisetas e como saleiros e pimenteiros, Mandela foi circunspecto em seus elogios ao papel de de Klerk na reconstrução do país.

“Apesar de suas ações aparentemente progressistas”, escreveu Mandela, “de Klerk não era de forma alguma o ‘grande emancipador’. Ele era um gradualista, um pragmático cuidadoso. Ele não fez nenhuma de suas reformas com a intenção de se colocar fora do poder. Ele os fez precisamente pelo motivo oposto: para garantir o poder para o Africaner em uma nova era. ”

A ascensão de de Klerk na África do Sul

Frederik Willem de Klerk nasceu em Joanesburgo em 18 de março de 1936, em uma família mergulhada na política dos africâneres, descendentes de colonos holandeses e huguenotes que chegaram ao sul da África no século XVII. Seu pai, Jan de Klerk, um diretor importante do partido africâner, tornou-se membro do gabinete de três primeiros-ministros e presidente do Senado. Seu tio, Hans Strijdom, um veemente defensor do apartheid, foi primeiro-ministro na década de 1950.

Seu avô, também chamado Willem, era um africâner orgulhoso, tendo sido preso sob acusação de traição pelos britânicos antes de se tornar ministro e membro fundador do Partido Nacional.

“A política”, escreveu de Klerk em sua autobiografia, “estava em meu sangue”. Formado como advogado na Potchefstroom University for Christian Higher Education, uma das mais importantes do país, de Klerk tornou-se membro da do partido africâner. Várias vezes ele se aliou à linha-dura racial dentro de seu partido e foi um dos ministros que foi até Botha, em 1986, e exigiu que o ministro das Relações Exteriores, Roelof Botha, se retratasse por dizer que a África do Sul poderia um dia ter um presidente negro.

Em seu livro Move Your Shadow, Joseph Lelyveld, ex-editor executivo do The New York Times, lembrou-se de ter perguntado a de Klerk, então um jovem membro do gabinete executivo da África do Sul, sobre a morte sob custódia policial de um homem branco acusado de simpatizar com o CNA. de Klerk disse que ficou zangado ao saber da morte. Por que? “Eu sabia como isso seria usado contra nós”, disse ele.

Os admiradores de de Klerk retrataram esses movimentos como uma indicação de que ele era um político astuto, que sabia que tirar a África do Sul do apartheid só poderia vir de alguém bem respeitado pelos conservadores do país. Outros o viam como menos visionário e mais prático, ciente de que o controle dos brancos sobre a maioria negra estava diminuindo.

Não passou despercebido a de Klerk que, ao desmantelar o apartheid, estava desfazendo grande parte do trabalho que seus ancestrais lutaram por décadas para realizar. / NYT, AP e AFP

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