Freira que delatou tráfico de órgãos em Moçambique volta ao Brasil

Uma freira brasileira que diz ter sofrido ameaças em Moçambique decidiu abandonar o país, acusando as autoridades de uma província moçambicana de serem coniventes com assassinatos que estariam sendo praticados por traficantes de órgãos. Falando em Lisboa, antes de voltar ao Brasil, Maria Elilda dos Santos disse que verificou a existência de dezenas de casos de pessoas mortas. "Acredito que tenham sido para experiências médicas e transplante de órgãos", disse. Maria Elilda, que há dez anos mora em Moçambique, vem denunciando os crimes desde setembro do ano passado e, em dezembro, foi intimada pelo governador da Província de Nampula a não ajudar mais ninguém, a não ser em trabalhos de parto e ataques de malária. Por causa das pressões, decidiu sair do país. Em fevereiro, a missionaria brasileira Doraci Edinger, que denunciou a existência de um esquema de tráfico de órgãos no país, foi encontrada morta em sua casa na cidade de Nampula. Depoimento A irmã Elilda foi convidada pelo Parlamento Europeu a, na próxima segunda-feira, falar sobre os crimes que viu em Moçambique. Em seguida, ela segue para o Brasil, onde ficará ligada à diocese de São Paulo, e irá depor à Comissão Parlamentar de Inquérito do Congresso sobre tráfico de órgãos. Segundo Elilda, os problemas em Nampula começaram em 2000, quando ela visitou uma região controlada por um casal de sul-africanos. Como investidores, eles teriam recebido o direito de exploração de uma grande propriedade e cercaram completamente a área - incluindo um trecho de uma estrada provincial. Elilda, que dirigia um mosteiro que atende a cerca de 9 mil pessoas da região, começou a se dar conta de que havia alguma coisa de errado com o caso de Sarima, uma menina de 12 anos que foi assassinada em 2002. O corpo de Sarima foi encontrado sem os olhos e vários órgãos, disse a freira. Inicialmente, ela pensou que fosse um incidente isolado, mas depois viu que muitos casos parecidos estavam acontecendo. Máfia Elilda disse que, em seguida, fez a denúncia à Polícia, ao Procurador da República em Nampula e ao governo provincial que, ainda de acordo com a freira, não tomaram providências. As investigações só começaram quando falou com o Procurador da República em Maputo, a capital do país, acompanhada pela presidente da Liga dos Direitos Humanos de Moçambique, Alice Taborda. Os procuradores chegaram a exumar dois corpos, mas o trabalho foi inconclusivo. "Num dos casos, arrumaram uma pessoa que disse que era primo da vítima, que disse que a mulher tinha sido assassinada pelo marido. Quando perguntaram o nome do marido, ele disse que não se lembrava." Ela afirma que há vários cadáveres em sepulturas clandestinas, cuja localização é conhecida pela população. Apesar de agora estar voltando para o Brasil, a irmã Elilda deixou claro que não se sente mais segura. "A máfia existe em todos os lugares", disse.

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