'Frente Ampla, hoje, é coalizão que se assemelha a um feudo'

Julio María Sanguinetti foi o primeiro presidente civil que o Uruguai teve após 12 anos de ditadura militar. Jornalista e membro do Partido Colorado, Sanguinetti foi eleito em 1985. Após entregar o poder a Luis Alberto Lacalle Herrera, voltou à presidência em 1995. Sanguinetti, crítico do governo de centro-esquerda da Frente Ampla do presidente José Mujica, aposta que as eleições do domingo terão segundo turno. A seguir, a entrevista ao Estado:

MONTEVIDÉU, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2014 | 02h03

Que balanço faz dos dez anos de governo da Frente Ampla?

Entre os pontos positivos do governo há o abandono de sua velha retórica revolucionária e terceiro-mundista para incorporar-se às regras do jogo democrático liberal. Além disso, agora também aceita as regras do mundo da economia de mercado. Isso também foi útil do ponto de vista eleitoral para a Frente Ampla, já que se aproximou mais do centro. A macroeconomia durante seu governo foi razoável, coincidindo com um período mundial de bonança. No entanto, a bonança não foi bem aproveitada, tendo em vista o déficit do país em infraestrutura.

Como definiria os candidatos Tabaré Vázquez e Lacalle Pou?

Vázquez é um típico médico, de fala pausada, muito frio em suas decisões, nada retórico em suas colocações, que hoje administra uma Frente Ampla que não é a mesma de sua época de presidente, pois hoje essa coalizão se assemelha a um feudo, está "feudalizada". Vázquez não tem vocação de consensos, não costura acordos. Já Lacalle Pou é uma novidade. Ele se separou da tradição ideológica do herrerismo, a velha corrente da direita, e também afastou-se politicamente de seu pai e está fazendo um caminho próprio.

E como qualificaria Pedro Bordaberry, o candidato colorado?

Bordaberry é um candidato muito sólido. Indiscutivelmente, é o mais preparado de todos. No entanto, carrega injustamente um peso: o fato de que, quando tinha 12 anos, seu pai, que havia sido um presidente civil, eleito democraticamente, aderiu a um golpe de Estado. Muitas pessoas o rotulam de "conservador", embora Pedro não seja. Não é de direita, mas o estereótipo pesa. É um liberal progressista.

Vázquez e Mujica protagonizaram uma troca de acusações nos últimos dias por diferenças sobre a Lei da Maconha e a formação das equipes econômicas...

Eles são, como dizemos no Uruguai, "sapos de diferentes poços". Vázquez é o típico profissional da classe média desse país. Homem formal e até conservador. Mujica representa o anarquismo romântico, não amarrado em convenções. São dois personagens associados pela necessidade política. Não possuem maiores afinidades pessoais ou políticas.

Como qualificaria a Frente Ampla? É uma coalizão de centro-esquerda, tal como vários analistas a rotulam?

É uma coalizão que na retórica parece de esquerda tradicional. Nos fatos, é mais populista que de centro-esquerda. O Partido Comunista, que integra a Frente Ampla, é marxista-leninista e pré-Muro de Berlim.

E como definiria o Partido Nacional e o Partido Colorado?

O Partido Nacional é liberal-conservador. Mas é um partido de nacionalismo romântico, de tons épicos, que apela ao lado emocional. Nós, colorados, somos muito racionalistas. E talvez sejamos meio entediantes por esse motivo. O Partido Colorado é de centro, em que convivem setores de centro e centro-esquerda. / A.P.

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