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Fronteira desmilitarizada coreana atrai turistas

Apesar do nome, região é ocupada por milhares de soldados e cheia de minas

Cláudia Trevisan, de O Estado de S. Paulo,

03 de junho de 2009 | 09h43

A "zona desmilitarizada" entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte existe há tanto tempo que já se tornou uma das principais atrações turísticas de Seul. Todos os dias, várias excursões levam estrangeiros à base controlada pelas Nações Unidas, que fica a uma hora da capital e é guardada por cerca de 700 soldados sul-coreanos e americanos.

 

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O ponto alto da visita a Panmunjon é a chegada à linha que demarca a fronteira entre os dois países e onde militares de ambos os lados ficam a poucos metros de distância. Não é raro que estejam na mesma sala, dedicada a conferências bilaterais, na qual a mesa central é dividida na mesma linha que continua depois das paredes.

Se soldados norte-coreanos se aproximarem, "não olhem, não apontem, não provoquem, não tirem fotos", alertou a guia que acompanhou o grupo com o qual a reportagem do Estado visitou Panmunjon ontem.

Os soldados não saíram do enorme edifício em estilo soviético construído em frente à fronteira, e apenas um militar em uniforme marrom escuro estava no alto da escadaria. Do lado sul-coreano, três soldados de punhos cerrados e óculos escuros permaneciam imóveis, voltados para o lado adversário.

Inúmeras câmeras estão instaladas em locais estratégicos em ambas as margens da linha divisória e torres de observação abrigam militares que não são vistos por trás dos vidros espelhados.

ARSENAIS

Apesar do nome, a região está longe de ser "desmilitarizada" e abriga um dos maiores arsenais de minas terrestres do mundo. O armistício que colocou fim à guerra entre as duas Coreias em 1953 foi assinado em Panmunjom e criou uma faixa neutra de 4 quilômetros - 2 de cada lado -, que percorre toda a extensão da fronteira, em um total de 241 quilômetros.

Quase 20 anos depois da queda do Muro de Berlim, a divisão das duas Coreias é o principal resquício da Guerra Fria, que levou à separação da Península Coreana depois da 2ª Guerra: o norte ficou sob influência soviética e abraçou o comunismo, enquanto o sul foi protegido pelos Estados Unidos e adotou o capitalismo. Os soviéticos se foram, mas os americanos continuam na Coreia do Sul, com cerca de 28 mil soldados.

A ameaça das minas afastou os humanos dos caminhos não pavimentados e permitiu o florescimento da mata ao redor da linha divisória. Intocada há cinco décadas, a floresta transformou-se em um santuário ecológico, com inúmeras espécies de pássaros e cervos que se aventuram pelo asfalto a qualquer hora do dia - na excursão de ontem foi possível avistar quatro deles, em duas ocasiões diferentes.

A visita ao local começou pelo campo militar Bonifas, batizado em homenagem a um capitão dos Estados Unidos assassinado por militares da Coreia do Norte em 1976. O ônibus esperou na entrada por cerca de 45 minutos, até que um jovem soldado americano vestido com uniforme de camuflagem entrou para conferir os passaportes dos turistas - um grupo de cerca de 20 pessoas, todas estrangeiras. Os sul-coreanos têm de visitar o local em excursões separadas e passar por um processo de aprovação que demora cerca de um mês.

Dentro do campo, os turistas são levados a uma sala, na qual é feita uma apresentação sobre a guerra e a situação atual da região. Também recebem um crachá de visitante das Nações Unidas e são obrigados a assinar uma declaração pela qual isentam a ONU, os Estados Unidos e a Coreia do Sul caso um ataque do "inimigo" cause ferimentos ou leve à morte.

De lá, um ônibus militar transportou os turistas para a linha divisória. No caminho, o início da faixa neutra de dois quilômetros do lado sul-coreano é marcado por uma imensa cerca dupla, arrematada no alto por enormes rolos de arame farpado. As mesmas cercas aparecem na margem dos rios que separam as duas Coreias, em um dos pontos por apenas 460 metros.

Antes de se aproximar da fronteira, os turistas reúnem-se dentro do edifício sul-coreano que está diante do norte-coreano em estilo soviético. São organizados em duas filas, orientados a não se separar e a andar em linha reta, atrás do jovem militar dos Estados Unidos.

Na saída do prédio veem, a cerca de 100 metros, o soldado norte-coreano, atrás do qual se estende um dos mais fechados e enigmáticos regimes do mundo.

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