Fronteiras acadêmicas

Investindo para abrigar universidades de excelência, países como China, Coreia do Sul e Arábia Saudita entraram numa disputa educacional de elite com EUA e Europa

Ben Wildavsky, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2010 | 00h00

YALE GLOBAL

No fim do ano passado, nove das principais universidades chinesas se uniram, no ano passado, para criar um consórcio de elite conhecido como a "Ivy League da China" (Ivy League nos EUA é formada pelas mais tradicionais universidades americanas). A união foi vista como algo normal em um país que preza pelo conhecimento e pensa que centros de formação superior de nível mundial impulsionam seu crescimento econômico. Hoje, a China é a prova principal do surgimento de um novo mercado universitário global, cada vez mais florescente.

Ao mesmo tempo, o impressionante progresso chinês na educação superior fez com que Pequim se tornasse símbolo da ameaça competitiva representada por "potências acadêmicas em ascensão". São temores injustificados. Mas não surpreende que tenham se tornado comuns, considerando o aumento da atividade acadêmica na China e em outros países.

Conhecida por muito tempo principalmente como a maior exportadora de estudantes, a China agora empreende esforços muito maiores para formar capital humano dentro de suas fronteiras. Além de ampliar o número e a qualidade de suas universidades, estabeleceu parcerias com instituições ocidentais que têm programas na China. Trouxe de volta ainda alguns acadêmicos que haviam ido para o Ocidente, oferecendo-lhes atraentes oportunidades.

E a China não está sozinha. O desejo de criar universidades competitivas é também amplamente visível em Cingapura, que pretende se tornar um centro acadêmico de renome mundial, trazendo numerosos parceiros ocidentais, como o Massachusetts Institute of Technology (MIT). A Coreia do Sul, por sua vez, acaba de criar uma espécie de zona de livre-comércio acadêmico em um complexo de 21.450 hectares nas proximidades do aeroporto de Inchon, hospedando filiais de câmpus de várias universidades ocidentais.

Tampouco a globalização acadêmica está restrita à Ásia. A Universidade Rei Abdullah de Ciência e Tecnologia (Kaust), que dispõe de imensas verbas, inaugurada na Arábia Saudita no ano passado, procura chegar ao topo do mundo acadêmico por meio de alianças com o Imperial College, de Londres, e a Stanford University, dos EUA. Aproveitando-se do novo mercado global de talentos, a Kaust elegeu como seu primeiro presidente Choon Fong Shih, da Universidade Nacional de Cingapura.

Na Europa Ocidental, também, os governos estão ansiosos em ressuscitar universidades outrora de grande renome que se tornaram medíocres. Alemanha e França, por exemplo, estão empenhadas em amplos e controvertidos esforços para abandonar um regime de financiamento igualitário, adotando outro modelo pelo qual as universidades competem por financiamentos públicos. A mudança, esperam, permitirá elevar um pequeno número de instituições para um padrão de classe mundial.

Temores. Contudo, embora haja um crescimento da concorrência, das parcerias universitárias, e os quadros das ligas globais e a mobilidade acadêmica se ampliem, a globalização acadêmica inspira periodicamente certa resistência. Na Grã-Bretanha, Ian Gow, funcionário da Universidade de Nottingham e fundador do câmpus Ningbo na China, adverte que as parcerias Pequim-Londres não passam de um esforço unilateral que se beneficia do vigor da ciência e da tecnologia da Grã-Bretanha. "As instituições britânicas devem parar de olhar esse país agressivamente ambicioso através de lentes cor de rosa", alertou.

Em um contexto diferente, mas relacionado, durante sua campanha à presidência, Barack Obama falou dos perigos de EUA ficarem atrás de países asiáticos na produção de doutores em engenharia. Mais restritivos, Malásia e Índia impuseram limites, respectivamente, ao número de estudantes estrangeiros e às parcerias com universidades de fora.

Por outro lado, certas advertências quanto à ascensão de potências estrangeiras na área da educação podem constituir pretextos retóricos para um aumento das verbas governamentais.

Ações protecionistas, porém, têm consequências. Robert Dingwall, diretor do Instituto para Ciência e Sociedade da Universidade de Nottingham, observou que as barreiras à concessão de vistos de ingresso não são apenas um problema para países que podem se beneficiar do elevado nível acadêmico de estudantes e professores estrangeiros, mas para todo o programa de colaboração internacional na área de pesquisa. Quando a burocracia interfere na mobilidade acadêmica, "essa visão de um mundo sem fronteiras em que o conhecimento flui livremente não está acompanhada pela livre movimentação das pessoas", disse.

O primeiro passo para preservar a globalização universitária é compreender que, para o Ocidente, o crescente vigor das instituições estrangeiras é uma oportunidade - e não uma ameaça. Do mesmo modo, países em desenvolvimento só poderão se beneficiar com o intercâmbio de ideias e pessoas permitido pela competição acadêmica global. Como economistas observam frequentemente, o conhecimento é um bem público que pode ser utilizado por muitos indivíduos e nações.

Avanços de um país não precisam constituir prejuízos de outro - ao contrário. Portanto, um sistema universitário "turbinado" que forma um número maior de chineses melhor preparados e produz descobertas mais significativas na área da pesquisa é bom - não ruim - para o resto do mundo.

Se não encontrar impedimentos, a crescente rede global de pesquisadores, estudantes e universidades, com todo crescimento econômico que poderão propiciar, deverá se tornar uma proposta benéfica e de uma magnitude cada vez maior para todos os atores envolvidos. / PUBLICADO SOB AUTORIZAÇÃO DA YALE GLOBAL ONLINE (WWW.YALEGLOBAL.YALE.EDU) - Z010 - YALE CENTER FOR THE STUDY OF GLOBALIZATION. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É PESQUISADOR DA

KAUFFMAN FOUNDATIONN

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