CSIS Asia Maritime Transparency Initiative/DigitalGlobe/Handout via REUTERS
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Moisés Naím
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Fronteiras movediças

Enquanto a areia movediça traga pessoas, as fronteiras que se movem engolirão sociedades inteiras; somente na Europa há 21 regiões com movimentos independentistas

Moisés Naím*, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2017 | 05h00

Se as areias movediças são perigosas, as fronteiras movediças são ainda mais. Enquanto a areia movediça traga pessoas, as fronteiras que se movem engolirão sociedades inteiras. 

Há 70 anos, Hitler queria mudar as fronteiras da Europa e o império japonês, as da Ásia. Essas tentativas custaram a vida de 3% da humanidade. No final dessas guerras, milhões de sobreviventes encontraram-se dentro de novas fronteiras, algumas das quais eram asfixiantes e intransponíveis. O muro que dividiu Berlim foi a mais famosa das fronteiras pós-guerra construídas para aprisionar uma nação.

Após a 2.ª Guerra veio um período durante o qual muitas colônias se tornaram independentes, mudando assim as fronteiras dos impérios que ainda sobreviveram. Na segunda metade do século 20, o movimento de linhas fronteiriças diminuiu, em larga escala, mas as tentativas de redefinir fronteiras não desapareceram.

Em 2014, por exemplo, Vladimir Putin engoliu a Crimeia, movendo dessa forma a fronteira russa. Do outro lado do mundo, os chineses estão “criando” novas fronteiras. O que, até alguns anos atrás, eram pequenos e desabitados recifes no meio do Mar da China Meridional, são agora micro ilhas capazes de abrigar bases militares operadas pelo governo de Pequim. Drenando sedimentos e areia do fundo do mar e compactando-os em torno de recifes e atóis de coral, fizeram crescer até o ponto em que era possível construir portos e aeroportos nas novas ilhotas. Desta forma, a China criou uma nova realidade geográfica e com ela novas fronteiras que lhes permitem reivindicar a soberania sobre essa área marítima adjacente. Os chineses não são os únicos nem os primeiros que criam novas fronteiras nessa região. Vietnã, Malásia, Filipinas e Taiwan também o fizeram, embora de maneira mais modesta.

Outros querem que a sua região tenha fronteiras que a tornem um país soberano. Somente na Europa há 21 regiões com movimentos independentistas que, se tivessem sucesso, alterariam o mapa do continente e transformassem sua política e sua economia.

Mas nestes tempos, uma tendência global ainda mais forte do que o movimento de independência é o fortalecimento das fronteiras para torná-las ainda mais inexpugnáveis - não para os cidadãos que desejam sair, mas para os estrangeiros que querem entrar. 

Desde a queda do Muro de Berlim, os países europeus construíram 1.200 km de cercas e muros contra migrantes, a grande maioria desde 2015. Essa distância equivale a 40% do comprimento da fronteira entre os EUA e o México. Um dos mais ativos construtores de cercas contra migrantes é Viktor Orban, primeiro-ministro da Hungria, que também enviou uma fatura de 400 milhões de euros à União Europeia (UE) para cobrir os custos de sua cerca. 

Como sabemos, Donald Trump também quer que o México pague os US$ 21 bilhões  que custará o muro que quer construir na fronteira. Tanto a União Europeia quanto o governo mexicano recusaram o convite para pagar a cerca de Orban e o muro de Trump.

Uma das ironias desses tempos tão confusos é que, enquanto os nacionalismos, o protecionismo e o isolacionismo estão na superfície, as forças que os enfraquecem são cada vez mais poderosas. Os vírus cibernéticos e pandemias não respeitam nem as fronteiras nem o isolacionismo. Proteger as economias nacionais dos efeitos das crises financeiras que ocorrem em outros países e afetar toda a economia mundial é impossível. Impedir a chegada de novas tecnologias ou ideias tóxicas que alterem a economia e a política de um país está cada vez mais difícil. Qual a fronteira, no mundo, que conseguiu repelir os contrabandistas de pessoas, de drogas, de produtos falsificados, de armas e muito mais? Nenhuma. Esta relação das realidades do mundo de hoje que fazem com que as fronteiras não cumpram o propósito para o qual existem é muito longa.

Tudo isso pode significar que o Estado-nação está em processo de extinção e os nacionalismos não são viáveis na prática? Claro que não. Estados, patriotismo e nacionalismos estão para ficar. Mas também vieram para ficar as fronteiras móveis. E aquelas que, independentemente das promessas dos políticos, na prática não conseguem proteger os cidadãos das ameaças que chegam de fora. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* MOISÉS NAIM É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT EM WASHINGTON

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