Fronteiras traçadas com sangue

A história mostra que no Oriente Médio a saída política nunca perdurou e as demarcações só ocorreram pela força

SEAN, MCMEEKIN, LOS ANGELES TIMES, O Estado de S.Paulo

30 Março 2015 | 02h06

Com a possibilidade de uma invasão por soldados americanos descartada - no momento -, a discussão em Washington sobre o que fazer com os militantes do Estado Islâmico mudou para o campo da diplomacia e o "poder brando". O presidente Barack Obama em recente artigo anunciando uma reunião de cúpula sobre o "extremismo violento" declarou que a luta, em última instância, era "uma batalha por corações e mentes".

De modo similar, James Fallows e Kenneth S. Brower sugeriram no Atlantic Monthly que a solução militar deve ser excluída em favor de uma saída política que, como escreveu Brower, "implicará uma tomada de posição dos Estados Unidos, pronunciando-se contra as fronteiras estabelecidas pelo acordo Sykes-Picot de 1916", dando a entender que apoiam uma divisão do Iraque em três países, sunita, xiita e curdo", e o novo Estado sunita incorporando áreas da Síria hoje controladas pelo Estado Islâmico.

Mark Sykes e François Georges-Picot voltaram à ordem do dia 99 anos depois de seu acordo definir o moderno Oriente Médio. Como os militantes do EI continuam a retraçar as fronteiras de Síria e Iraque, somos lembrados quase todos os dias de que o trabalho realizado pelos dois diplomatas vem sendo arruinado. Sykes-Picot tornou-se um clichê, um lamento contra uma divisão injusta e mal concebida do Império Otomano após a 1.ª Guerra, que marcou o início das intermináveis crises da era moderna. Ao eliminar esse pérfido legado, como Brower e Fallows sugerem, e os sunitas iraquianos e sírios que hoje se unem EI terão algo melhor por que aspirar, ou seja, um Estado realmente seu (presumivelmente menos teocrático).

Pôr um fim ao acordo Sykes-Picot é uma ideia sedutora. E também uma bobagem, revelando uma total ignorância da História. Para começar, nenhuma das atuais fronteiras em disputa envolvendo Síria e Iraque foram traçadas por esse acordo de 1916, tampouco outras que nasceram de disputas mais recentes, como as que separam Iraque do Kuwait ou Israel /Palestina da (Trans) Jordânia. O mais famoso exemplo a se extrair das manchetes atuais é Mossul no norte do Iraque, onde o clérigo Abu Bakr al-Baghdadi anunciou o nascimento de um novo califado após a cidade ser tomada pelo EI. Na verdade foi instalada na zona "síria" francesa em 1916 e capturada pelos britânicos em 1918.

O mito das fronteiras de Sykes-Picot também confundiu o entendimento histórico. Mesmo no papel o acordo de 1916 foi repetidas vezes revisado, inicialmente para acomodar reivindicações de Itália e Grécia (em 1917) e mais tarde para negar à Rússia o seu botim de guerra após os bolcheviques assinarem um acordo de paz separado em 1918 e adjudicarem antigas zonas russas aos EUA (em 1919) apenas para estes "mandatos americanos" virarem fumaça quando o Senado americano rejeitou ratificar os tratados em 1920.

As terras que hoje compreendem Síria e Iraque foram duramente contestadas numa disputa complexa envolvendo não apenas diplomatas, mas tropas britânicas, francesas, árabes, armênias e turcas. As fronteiras foram demarcadas pelas armas, mas a Síria acabou sendo truncada ainda mais quando a Turquia anexou a Província de Hatay em 1939.

Bem mais ao norte, as zonas russas foram atribuídas à Grécia, aos EUA e à então independente Armênia. Um outro território em disputa foi prometido à França, para em seguida as forças nacionalistas turcas, sob o comando de Mustafa Kemal Ataturk, retomarem quase tudo, traçando com sangue as fronteiras atuais da Turquia.

Por outro lado, na Palestina houve uma disputa ainda mais dramática nos anos pós-1916, com britânicos, sionistas, hachemitas e árabes fazendo reivindicações que foram solucionadas pela força das armas e onde o equilíbrio é precário até hoje.

Tão enganosa quanto o mito de que as fronteiras atuais foram estabelecidas pelos dois diplomatas em 1916 é a noção de que um novo traçado do mapa do Oriente Médio para harmonizar os grupos étnico-religiosos corrigiria aquele "erro" histórico.

Na verdade a ideia fez parte da negociação envolvendo a partilha do Império Otomano. No 12.º dos seus "14 Pontos", o presidente Woodrow Wilson estipulou que "as outras nacionalidades que estão agora sob controle turco devem ter garantida uma segurança de vida indiscutível", ou seja, sua autodeterminação. Para isso, Wilson criou uma comissão em 1919 para realizar uma pesquisa entre os povos anteriormente otomanos.

O acordo de partilha do Império Otomano, assinado em agosto de 1920 em Sèvres, foi atualizado na verdade para se adaptar ao princípio de autodeterminação previsto por Wilson, com novas e grandes entidades territoriais distribuídas para minorias gregos, armênios e curdos. Como Sykes-Picot, o acordo de Sèvres foi anulado no campo de batalha.

Pode se argumentar que as fronteiras estabelecidas pelo acordo de Sèvres teriam perdurado se os EUA não declinassem dos seus mandatos otomanos em 1920 e se retirassem da região.

O poder brando, infelizmente, nunca representou muito no Oriente Médio. No mundo islâmico mesmo a autoridade religiosa suprema, como a afirmada pelo "califa" Baghdadi do Estado Islâmico, sempre permaneceu no final um poder temporal. O califado otomano acabou em 1924 não por causa dos acordo de Sykes-Picot ou do pacto de autodeterminação concebido por Wilson, mas porque a 1.ª Guerra e a subsequente guerra entre turcos e gregos destruíram o poder e o prestígio do sultão.

O destino do califado de Baghdadi, do mesmo modo, dependerá não de ideias inteligentes que os ocidentais tiverem para desestimular seus fiéis sunitas, mas do sucesso ou fracasso dos seus Exércitos. As fronteiras do Oriente Médio de amanhã serão demarcadas pela força, como sempre ocorreu. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PROFESSOR DE HISTÓRIA DO BARD COLLEGE E ESCRITOR

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