Frustação Mubarak reitera que fica até setembro

Após sinais de renúncia, líder egípcio aferra-se ao poder e delega a vice chefia da transição apenas

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2011 | 00h00

O presidente Hosni Mubarak frustrou ontem à noite a expectativa de centenas de milhares de egípcios reunidos na Praça Tahrir - e possivelmente de milhões que o viam pela televisão - ao reiterar, num pronunciamento à nação, que permanecerá no cargo até as eleições presidenciais de setembro. Mubarak afirmou, sem dar mais detalhes, que tinha passado "alguns poderes, de acordo com a Constituição", para o seu recém-nomeado vice-presidente, Omar Suleiman.

O pronunciamento provocou fúria entre os manifestantes, que assistiram ao discurso num telão instalado no principal palanque da praça. "Amanhã (hoje) à tarde marcharemos até o Palácio Presidencial", gritaram eles, enquanto deixavam a praça.

Mesmo antes do aumento da expectativa sobre a renúncia de Mubarak, já estava prevista para hoje uma grande manifestação, que não se restringiria à Praça Tahrir, na saída da oração do meio-dia, a principal da sexta-feira, dia do descanso semanal muçulmano. A ideia, disseram os organizadores ao Estado, é ocupar outras praças do Cairo e de outras cidades do país.

O discurso, iniciado às 22h47 no Cairo (18h47 em Brasília), foi precedido de sinais por parte do Exército e do partido do governo de que o presidente renunciaria. Suleiman fez em seguida um pronunciamento também na TV estatal, afirmando que o governo vai "atender a todas as exigências" dos manifestantes, "dentro de um prazo determinado", e "a porta está aberta para mais diálogo".

O discurso de Suleiman deu novo sentido a uma declaração feita mais cedo pelo comandante do Exército na região do Cairo, Hassan al-Roweny. O general compareceu à praça e disse aos manifestantes: "Tudo o que vocês querem será realizado". Os manifestantes levantaram Al-Roweny no ombro, gritando: ''O Exército e o povo estão unidos.''

Mas tanto no discurso de Mubarak quanto no de Suleiman parece ter ficado claro que as exigências serão atendidas dentro do prazo por eles estipulado - ou seja, o presidente só sairá depois da eleição de setembro. "Voltem para casa, voltem para o trabalho", exortou Suleiman, dirigindo-se aos manifestantes. "Não ouçam canais de TV estrangeiros, cujo objetivo é trazer caos para o Egito." Mubarak também insistiu mais uma vez nessa tecla: "Nunca sucumbi a pressões internacionais". A TV estatal difunde constantemente versões de que as manifestações seriam orquestradas por outros países, em especial Israel.

Mubarak reiterou que não se candidatará a presidente em setembro, e "a vontade do povo será respeitada" na próxima eleição. Ele também prometeu "punir duramente" os responsáveis pela violência contra os manifestantes, que, segundo a ONU, deixou mais de 300 mortos (o governo admite metade disso). "O seu sangue não foi derramado em vão", dramatizou o presidente.

Pela primeira vez a cúpula das Forças Armadas reuniu-se ontem sem a presença do presidente, seu comandante-chefe. Antes da visita do general Al-Roweny, o novo presidente do governista Partido Nacional Democrático, Hossam Badrawi, que assumiu o cargo depois que toda a direção se demitiu, para tentar aplacar os protestos, também esteve na Praça Tahrir e deu a entender que Mubarak deixaria o poder. Ele disse que gostaria que o presidente "cumprisse sua promessa, que o Parlamento emendasse a Constituição, e dissesse que entende a legitimidade dos manifestantes e respeita as exigências dos jovens nas ruas".

Tudo isso criou enorme expectativa, de que Mubarak renunciaria para não enfrentar a manifestação maciça prevista para hoje.

O opositor Mohamed ElBaradei, após o discurso de Mubarak, advertiu que o Egito "explodirá e precisa ser resgatado pelo Exército". "O Exército deve salvar o país agora", afirmou Nobel da Paz em mensagem no Twitter.

O movimento continuou aumentando ontem, com greves de trabalhadores eclodindo em várias partes do país e em vários setores da economia. Nas indústrias têxteis da Província de Mahala, no norte do país, 24 mil trabalhadores cruzaram os braços, exigindo melhores salários e direitos sociais. Os funcionários dos trens que ligam as cidades egípcias também entraram em greve, assim como lixeiros e médicos. Um grupo de profissionais da saúde chegou ontem de manhã à Praça Tahrir, usando seus aventais brancos. Segundo informações, alguns hospitais no Cairo teriam parado de funcionar. Nas redações dos jornais do governo, jornalistas se rebelaram contra seus chefes, exigindo mudanças na linha editorial.

Nos EUA, o embaixador egípcio Sameh Shoukry disse à rede de TV CNN que, embora deva permanecer no cargo até setembro, Mubarak já não exerce nenhum poder no Egito. "Suleiman é o presidente de facto", afirmou.

17 DIAS DE PROTESTOS

14/1/2011

Manifestações na Tunísia culminam com a saída do presidente Zine al-Abidine Ben Ali do poder

25/1/2011

O Egito segue o exemplo e inicia protestos contra Hosni Mubarak

27/1/2011

ElBaradei retorna; Irmandade Muçulmana chama seus integrantes às ruas

28/1/2011

"Dia de Fúria" reúne milhares

29/1/2011

Mubarak dissolve o gabinete

1/2/2011

Exército diz que protesto é legítimo e não interfere na "Marcha de 1 milhão"

2/2/2011

Partidários de Mubarak espancam manifestantes

8/2/2011

O executivo do Google Wael Ghonim discursa depois de prisão

10/1/2011

Rumores sobre a queda de Mubarak se espalham

Demonstração de força

HOSNI MUBARAK

PRESIDENTE DO EGITO

"Expresso meu compromisso de levar adiante e proteger nossa Constituição e nosso povo, e transferir o poder à pessoa - não importa quem seja - que for eleita em setembro, por meio de eleições livres e transparentes"

"Pensei em transferir o poder do presidente ao vice-presidente (Omar Suleiman), de acordo com a Constituição. Estou seguro de que o Egito conseguirá superar essa crise: a vontade do nosso povo não pode ser quebrada, pois ela levantará com seus próprios pés uma vez mais"

"Provaremos nossa capacidade de alcançar os objetivos do povo de forma civilizada. Provaremos que não seguimos os outros, que não tomamos instruções de outros e ninguém pode decidir por nós mesmos"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.