Frustração marca primeiro ano do governo de Raúl

Quem esperava abertura em Cuba se decepcionou; aproximação com países vizinhos traz esperanças

, O Estadao de S.Paulo

25 de fevereiro de 2009 | 00h00

Em meio a uma acentuada crise econômica e esperanças frustradas de reformas substanciais, o presidente cubano, Raúl Castro, completou ontem um ano no cargo. Em 2008, a posse de Raúl acendeu expectativas de abertura econômica e política em Cuba. Há quem veja com otimismo o fato de a ilha estar ampliando os contatos com os países vizinhos e a Europa - e até quem aposte numa relação menos conflitiva com os EUA nos próximos anos. Mas aqueles que esperavam mudanças radicais no curto prazo se decepcionaram. "Não se viram reformas além de questões cosméticas. O balanço desse ano é mais repressão com apatia da população", disse o cubano Carlos Payá, porta-voz do Movimento Cristão de Libertação, que reúne exilados cubanos na Espanha, e irmão do conhecido dissidente Oswaldo Payá. "Esse ano foi marcado por alguns gestos de abertura do regime, mas autoridades de Havana ainda se negam a colocar em liberdade 23 jornalistas detidos arbitrariamente na ilha", denunciou ontem a organização Repórteres Sem Fronteiras. Entre as mudanças promovidas por Raúl estão a o fim das restrições à venda de aparelhos eletrônicos como computadores e DVDs na ilha e da proibição para que os cubanos frequentem hotéis, antes exclusivos para turistas. O novo governo também anunciou uma reforma no sistema de remuneração para permitir que os ganhos acompanhem a produtividade dos trabalhadores e prometeu normalizar as chamadas moradias estatais - um primeiro passo para que os cubanos tenham direito à casa própria.Em setembro, Raúl chegou a dizer que os cubanos devem esperar um "socialismo realista", que elimine o igualitarismo, os subsídios excessivos e seja economicamente sustentável. "Socialismo significa justiça social e igualdade, mas igualdade de direitos, de oportunidades, não de renda", disse. Os anúncios de mudanças, porém, foram ficando cada vez mais esparsos. Segundo analistas, entre os limites para as reformas está a ainda forte presença do líder Fidel Castro, irmão de Raúl. Apesar de afastado do poder desde 2006 - quando foi submetido a uma cirurgia de emergência no intestino - Fidel continua participando da vida política de Cuba, escrevendo artigos com bastante frequência na imprensa local e recebendo visitas de chefes de Estado. Nos últimos dois meses, visitaram a ilha os governantes de seis países latino-americanos: Venezuela, Argentina, Chile, Equador, Panamá e Guatemala. Os presidentes de México e Honduras passarão pelo país em março. "Essa é uma amostra do apoio e respeito a Cuba", afirmou Raúl na semana passada. Ele também destacou que muitas dessas autoridades pediram o fim do embargo dos EUA, dispositivo que, segundo seu governo, seria o culpado pelos problemas econômicos da ilha - agravados pela passagem de dois furacões em 2008.

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