Rachel Woolf/WP
Rachel Woolf/WP

Como uma operação secreta da CIA resgatou afegãos e americanos no Afeganistão

Agência usou base nas proximidades do aeroporto internacional de Cabul para operações de retiradas de civis ameaçados pelo Taleban

Dan Lamothe e Ellen Nakashima, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2021 | 10h00

CABUL - Cinco dias após a queda do governo do Afeganistão, Shaqaiq Birashk, escondida em seu apartamento em Cabul, foi procurada por um estranho que se ofereceu para buscá-la e escoltá-la ao aeroporto para retirá-la do país. O homem alegava trabalhar para o governo americano, disse Birashk, uma cidadã americana que, até a ascensão do Taleban, trabalhava em um projeto da USAID.

Após alguma inquietação e o encorajamento de uma amiga que já havia passado pelo processo, ela aceitou. Naquela noite, vestindo uma larga abaya, que escondia uma mochila de roupas limpas, Birashk, de 37 anos, atravessou nervosa a barreira de guardas taleban que tinham assumido a segurança do prédio onde ela vivia e entrou no banco de trás de um Toyota Corolla verde, na esperança de rumar para a liberdade.

“Enfrentamos muito trânsito”, recordou-se ela em uma entrevista. “A gente via homens e mulheres, jovens e idosos, todo tipo de gente caminhando na direção do aeroporto.”

Birashk soube depois que seu resgate foi orquestrado em parte pela CIA, que teve um papel central — juntamente com soldados americanos de elite e forças afegãs de contraterrorismo — em perigosas retiradas de americanos, afegãos e estrangeiros ameaçados pelo Taleban por trabalhar para o governo americano. Uma porta-voz da agência, Tammy Thorp, recusou-se a detalhar a operação, afirmando apenas que equipes da CIA, em coordenação com outras agências americanas, deram apoio ao amplo esforço de retirada “de várias maneiras”.

Cinco autoridades e ex-autoridades americanas familiarizadas com as missões afirmaram que a CIA usou um complexo conhecido como Base Eagle, localizado a poucos quilômetros do Aeroporto Internacional Hamid Karzai, para realizar resgates como a emocionante fuga noturna por território controlado pelo Taleban para a retirada de Birashk do alto edifício de apartamentos em que ela vivia. Como outros personagens desta história, essas fontes falaram sob condição de anonimato a respeito de aspectos sensíveis do caótico esforço de duas semanas para retirar 124 mil pessoas do Afeganistão.

Os resgates que passaram pela Base Eagle envolveram múltiplos voos de helicóptero para o aeroporto de Cabul. Essas missões, afirmaram as autoridades, ocorreram separadamente em relação a outros resgates aéreos realizados pelos militares dos EUA para evitar que americanos tivessem de atravessar as vias cada vez mais perigosas do entorno do aeroporto, onde o Taleban levantou postos de controle e um atentado suicida do Estado Islâmico matou mais de 200 pessoas, incluindo 13 soldados americanos, em 26 de agosto. Os militares americanos realizaram alguns voos a partir da Base Eagle, afirmaram três autoridades dos EUA.

Os resgates foram realizados enquanto os militares americanos tentavam estreitar os parâmetros para as missões que deveriam realizar. Membros de elite do Comando Conjunto de Operações Especiais, incluindo da Força Delta, e helicópteros do 160.º Regimento de Aviação de Operações Especiais estavam no aeroporto de Cabul. Operações terrestres dentro da cidade, contudo, não foram permitidas, frustrando os que queriam fazem mais para ajudar, afirmaram três autoridades. Em certas ocasiões, esses soldados se aventuraram em pequenos percursos no entorno do aeroporto para escoltar cidadãos americanos até a base, afirmaram as autoridades.

Uma autoridade de defesa com conhecimento das operações afirmou que não havia nenhuma “política geral” para proibir soldados de elite americanos de deixar o aeroporto de Cabul. A fonte afirmou que quando eles ultrapassavam os portões do terminal, “normalmente percorriam curtas distâncias”.

Os militares dos EUA admitiram ter realizado duas missões unilaterais com voos de helicóptero no entorno do aeroporto, para resgatar um total de 185 americanos, e uma missão em colaboração com forças da Alemanha para resgatar 21 alemães. As Forças Especiais dos EUA auxiliaram 1.064 americanos, 2.017 afegãos e 127 pessoas de outras nacionalidades a chegar ao aeroporto, por meio de “telefonemas, facilitações e escoltas”, afirmou a autoridade de defesa.

Birashk, que afirmou ter passado dias sem saber que tinha sido levada para uma base da CIA, prestava consultoria para autoridades do Afeganistão por meio de uma organização não governamental afegã, quando o Taleban começou a ameaçar Cabul. Parentes e alguns amigos a pressionaram para fugir do país, mas ela dizia que queria sair em suas próprias condições, em vez de repetir o trauma da fuga de 1989, quando, ainda criança, escapou com a família da guerra civil.

“Eu tinha retornado ao Afeganistão com respeito e queria deixar o país com respeito”, afirmou ela.

No dia 14 de agosto, um sábado, após o Taleban tomar várias das principais cidades do país, autoridades afegãs encorajaram Birashk a fugir. Ela reservou uma passagem para 18 de agosto, no primeiro voo que conseguiu encontrar, e se registrou na Embaixada Americana em Cabul para uma possível operação de retirada, afirmou ela.

Mas era tarde demais. No dia seguinte, o presidente afegão, Ashraf Ghani, e um secto de graduadas autoridades afegãs fugiram do país, deixando um vácuo de poder em Cabul que o Taleban preencheu rapidamente. Os militares dos EUA lutaram para estabelecer um perímetro de segurança em torno do aeroporto de Cabul, mas o Taleban levantou postos de controle por toda a cidade.

Birashk, já preocupada com a violência no aeroporto, soube em 17 de agosto que seu voo tinha sido cancelado. Enquanto avaliava qual seria a maneira mais segura de sair de Cabul, ela recebeu o telefonema do governo americano no início da noite do dia 19.

Birashk afirmou que, inicialmente, disse ao representante do governo que não queria deixar o país sem vários outros afegãos que conhecia. “O rapaz disse, de uma maneira muito educada e profissional, até, algo do tipo, ‘Bem, nossa prioridade é você. Assim que estiver disposta a deixar o país sozinha, me ligue para avisar’”, recordou ela.

Uma amiga ligou para ela depois, naquela mesma noite, e lhe disse que ela se arrependeria se não escapasse enquanto ainda podia. Birashk deixou seu apartamento por volta das 23h. Pediu que uma vizinha afegã a acompanhasse até o lado de fora, onde estavam os guardas taleban, e elas se despediram emocionadas.

“Ela disse, ‘Você pode, por favor, me levar com você?’. Ela é afegã. E a única coisa que consegui fazer naquele momento foi chorar”, afirmou Birashk. “Eu já estava arrasada por não poder ajudar as 11 pessoas que queria. E então, ela estava aqui, sabe, nesse momento final, de certa maneira me implorando para levá-la comigo. Esse remorso tomou conta de mim.”

Birashk afirmou que, quando entrou no carro, outros dois fugitivos já estavam no veículo. Um motorista afegão os conduziu através de postos de controle do Taleban, falando com os combatentes em língua pashto, que muitos deles conhecem. Enquanto o carro se movia, ela enviava a localização por meio de uma plataforma de comunicação para seu contato no governo americano, que corrigia o percurso por mensagens de texto sempre que o grupo dobrava qualquer esquina errada, afirmou ela.

“Eu disse, ‘Quando saberei que cheguei até vocês?’. E ele respondeu, ‘Você vai encontrar alguns amigos meus antes”, afirmou ela.

Quando o carro parou, soldados afegãos orientaram ela e os outros fugitivos a mudar de veículo. Eles foram levados então para o campo da CIA, a pouco mais de 1 km de lá. O representante do governo dos EUA confiscou seus celulares após permitir que informassem as famílias que estavam seguros, afirmou ela.

“Disseram para a gente não revelar nossa localização”, afirmou Birashk. Se pessoas começassem a aparecer na base tentando fugir, alertou o homem, eles não conseguiriam ajudar mais ninguém.

Os fugitivos passaram a noite na Base Eagle e foram levados ao aeroporto na tarde seguinte, em um grupo de 90 a 100 pessoas, a bordo de três helicópteros, afirmou ela.

Birashk foi entregue a militares da Hungria, que a transportaram de avião até o Usbequistão. Depois de três dias no aeroporto uzbeque, levaram-na para Budapeste, afirmou ela. Birashk continuou em contato com o mesmo representante do governo americano e forneceu-lhe nomes de pessoas que precisavam ser retiradas do Afeganistão, afirmou ela.

Birashk reencontrou-se com a família no Colorado, em 26 de agosto.

Ela afirmou estar grata pelo resgate e pela gentileza com que foi tratada. Mas está com o coração apertado por causa dos jovens afegãos, que foram criados para sonhar com coisas agora impossíveis por causa do Taleban, e enfurecida com o presidente Biden por causa da maneira que os EUA se retiraram do Afeganistão, disse ela.

“É um fracasso de política externa. É constrangedor”, afirmou ela. “Por eu ser afegã-americana, ouvia os afegãos dizerem ‘Ah, vocês são privilegiados’. Agora ouço coisas piores, como, ‘Vocês nos destruíram’. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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