AP Photo/Eric Gay
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Fuga de venezuelanos para os EUA deixa para trás um país sem jovens

Queda demográfica é resultado da baixa natalidade, alta mortalidade e crescente fluxo migratório; Venezuela começa a ser conhecida como ‘terra de idosos e crianças’

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2022 | 05h00
Atualizado 13 de fevereiro de 2022 | 05h00

Quando Diego (nome fictício, por razões de segurança) trocou a Venezuela pelos EUA sabia que tinha pouco tempo até que o cerco apertasse. Ele chegou à fronteira americana no dia 20 de novembro, quando o número de venezuelanos tentando cruzar o Rio Grande batia recordes. Atrás dessa onda de migração em massa sobrou um país devastado pela crise e com uma demografia diferente da que existia há seis anos.

Os imigrantes venezuelanos passaram a enfrentar um cerco na América Latina, já que muitos governos – incluindo o México – agora exigem visto de entrada. Além disso, a crise econômica, agravada pela pandemia, acelerou o processo de migração. Em dezembro, 24.961 venezuelanos apareceram na fronteira – um ano antes, foram apenas 371.

 

“O medo era que, se demorássemos, não conseguiríamos mais por conta do visto. A dificuldade foi sair da Venezuela, porque estávamos eu, minha cunhada e minha sobrinha de 3 anos. Pagamos US$ 2,4 mil para sair com a menina, porque não havia documentação para retirá-la do país”, conta o jovem de 30 anos, formado em Manutenção Aeronáutica, que vive em Miami

Pandemia agravou a saída de venezuelanos do próprio país

Em 2021, mais de 40 mil venezuelanos entraram no México com o visto de turista, muitos em Cancún. Aos poucos, eles começaram a cruzar para os EUA em busca de uma vida melhor. “Eu não passava necessidade na Venezuela, mas não tinha progresso econômico para ter minhas coisas, uma casa, um carro ou mesmo crescimento profissional. Tive a chance de vir e viver com meu irmão, que me emprestou o dinheiro. Saímos da Venezuela em um voo com escala no Panamá e chegamos ao México”, disse Diego.

Ao contrário dele, muitos venezuelanos não pegaram um voo para os EUA. “Muitas famílias que chegam agora estão deslocadas há anos. Eles decidiram partir, como ocorreu com os haitianos. Mas a diferença é que, entre os venezuelanos, apenas entre 20% e 25% dos pedidos de asilo são negados”, explica a professora da Faculdade de Educação de Harvard Gabrielle Oliveira, que realiza pesquisas com famílias de imigrantes.

Segundo a ONU, mais de 6 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2015 e 4 milhões vivem na América Latina. Com a pandemia e o agravamento da crise econômica em países da região, eles resolveram novamente se arriscar e partir rumo aos EUA.

A chegada massiva de venezuelanos deixou o presidente Joe Biden diante de um desafio. Entre setembro e dezembro, 69.972 venezuelanos chegaram aos EUA de forma ilegal. Hoje, autoridades americanas estimam que existam 323 mil venezuelanos clandestinos, que são elegíveis para receber o TPS – status de proteção provisória.

No entanto, Biden acionou o Título 42, que permite a deportação por questões sanitárias – o argumento é que os imigrantes ampliam o risco de disseminação da covid. Assim, os EUA passaram a expulsar os venezuelanos, que foram enviados para a Colômbia, onde residiam antes. A política causou atrito com o presidente colombiano, Iván Duque. 

Venezuela se torna um país de velhos e crianças

O impacto do êxodo é enorme na Venezuela. O país começa a ser conhecido como “uma terra de idosos e crianças”. Segundo pesquisa recente, no país existem hoje 65 pessoas dependentes – menores de 15 anos ou maiores de 60 – para cada 100 pessoas em idade economicamente ativa. “Os jovens sumiram da Venezuela. Eu mesmo tinha poucos conhecidos ainda lá, a maioria foi embora”, conta Diego. 

Projeção do Instituto Nacional de Estatística da Venezuela (INE), de 2015, estimava que, em 2020, o país teria 32,5 milhões de habitantes. No entanto, segundo o Banco Mundial, a Venezuela tem hoje 28 milhões. A diminuição é resultado da baixa natalidade e alta mortalidade, além do fluxo migratório. Segundo a Universidade Católica Andrés Bello, de Caracas, 60% dos migrantes venezuelanos têm idades entre 15 anos e 50 anos.

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