Fuga dramática teve a ajuda de dois dissidentes

Chen Guangcheng aproveitou alguns segundos de ausência dos guardas que vigiam sua casa para escalar o muro que cerca o local na noite do último domingo. Cego, ele caminhou durante horas, nas quais tropeçou inúmeras vezes, passou sobre sete obstáculos e atravessou um rio, até entrar em contato com os dois amigos que o levaram a Pequim: He Peirong e Guo Yushan, que foram detidos na sexta-feira.

PEQUIM, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 03h04

Ambos conseguiram burlar a vigilância que cerca de vila rural de Chen. Guo se passou por funcionário da empresa de eletricidade e He se disfarçou de entregadora de mercadorias. Os dois integram a rede de ativistas que planejou a fuga de Chen nos últimos dois meses. Entre eles, está Hu Jia,o dissidente condenado a três anos e meio de prisão em 2008 sob acusação de subversão. Libertado em 2011, ele voltou a ser um crítico do governo.

"Planejamos a fuga por mais de dois meses e concordamos que a Embaixada dos EUA era o lugar mais seguro para Guangcheng, portanto, a embaixada era nosso destino", disse Hu ao Estado por telefone, enquanto aguardava para ser interrogado pela polícia na tarde de ontem.

Segundo as autoridades, Hu Jia desrespeitou as regras de sua liberdade condicional ao fazer comentários sobre o caso. Sua mulher, Zeng Jinyan, também foi convocada. Na sexta-feira, ela divulgou na internet foto de sua autoria na qual Chen e Hu aparecem juntos, sorrindo. Os três se encontraram em Pequim, depois da fuga.

Apesar de Chen estar sob proteção dos EUA, Hu afirmou que ele não pretende pedir asilo político. "A última vez em que conversei com Guangcheng, ele me disse que não quer deixar a China. Ele foi para a embaixada porque é um lugar seguro, onde as autoridades não podem prendê-lo ou machucá-lo."

Cego desde a infância, Chen foi analfabeto até o fim da adolescência, quando estudou em uma escola para deficientes visuais. Depois, formou-se em acupuntura na Faculdade de Medicina Tradicional de Nanquim. Impedido de frequentar a Faculdade de Direito por ser cego, assistiu aulas como ouvinte e tornou-se um advogado autodidata.

Chen começou sua carreira defendendo os direitos de cegos, mas mas logo passou a atuar em outros casos. Em 2005, iniciou uma ação coletiva em nome de 7 mil mulheres da Província de Shandong que haviam sido obrigadas a realizar abortos e esterilizações. Em alguns casos, os fetos foram retirados poucas semanas antes do parto.

O caso ganhou notoriedade internacional e Chen foi eleito, em 2006, uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time. A ação também lhe valeu a condenação a quatro anos e três meses de prisão sob a acusação de "distúrbio ao trânsito". Apesar de ter cumprido a pena, ele não foi libertado e passou os últimos 19 meses confinado em sua casa. Advogados e ativistas afirmam que a detenção era ilegal, por não ter base em uma condenação ou acusação formal.

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