Fuga em meio ao pânico e desespero

Milhares tomam o aeroporto de Trípoli em busca de passagens para deixar a Líbia; no centro da capital, capangas de Kadafi e uma população entorpecida pela violência

ROBERT FISK, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2011 | 00h00

Mais de 15 mil pessoas, entre homens, mulheres e crianças, se empurravam no saguão do aeroporto internacional de Trípoli, na quinta-feira à noite, berrando na tentativa de conseguir um lugar nas poucas companhias aéreas ainda dispostas a voar para o que resta do país de Muamar Kadafi, subornando a polícia líbia para chegar até os guichês de passagens: uma multidão de pessoas famintas, desesperadas, encharcadas de chuva.

Muitas acabaram sendo pisoteadas enquanto os homens que agora fazem a segurança da Líbia espancavam selvagemente os que tentavam abrir caminho.

Entre os que procuravam partir estavam parceiros árabes de Kadafi, milhares deles egípcios, alguns praticamente acampados há dois dias no aeroporto sem comida nem instalações sanitárias. O lugar fede a fezes e urina. Se você for um "cão" da imprensa internacional, uma visita de 45 minutos ao centro de Trípoli à procura de uma passagem de avião para outro destino é a única chance de ver a capital de Kadafi.

Ontem, não havia muitos sinais de oposição ao grande líder. Esquadrões de jovens armados de fuzis AK-47 estavam postados nas estradas laterais, perto de barricadas feitas com cadeiras e portas de madeira. Eram os capangas favoráveis a Kadafi - um arremedo da "guarda de bairro" egípcia que vi no Cairo há mês - que haviam pendurado fotografias do infame Livro Verde de seu líder aos cartazes das barreiras.

Os alimentos escasseiam na cidade sobre a qual caía uma chuva triste, tétrica. A água escorria pela Praça Verde, vazia, e pelas ruas em estilo italiano da antiga capital da Tripolitânia. Mas não havia tanques, veículos blindados para o transporte de tropas, soldados, nem um caça no ar; apenas alguns policiais e velhos andando pelas calçadas - uma população como que entorpecida. Infelizmente para o Ocidente e para o povo da cidade livre de Benghazi, a capital da Líbia parecia calma, como qualquer ditador gostaria.

Mas isso não passa de uma ilusão. Os preços da gasolina e dos alimentos triplicaram; cidadezinhas inteiras foram dilaceradas pelos confrontos entre forças favoráveis e contrárias a Kadafi. Nos subúrbios da cidade, principalmente no bairro de Noufreen, as milícias atacaram durante 24 horas no domingo com metralhadoras e pistolas, e a batalha foi vencida pelas forças do ditador. No final, o êxodo dos estrangeiros que viviam aqui contribuirá muito mais para a derrubada do regime do que a guerra nas ruas.

Fui informado de que pelo menos 30 mil turcos, que constituem o grosso da mão de obra do setor de construção e engenharia, fugiram da capital, juntamente com dezenas de milhares de outros trabalhadores estrangeiros. No avião com o qual deixei Trípoli, num voo especial para levar os cidadãos estrangeiros à Europa, estavam empresários poloneses, alemães, japoneses e italianos, e todos me disseram que haviam fechado as principais companhias na semana passada. O pior ainda para Kadafi é que os campos de petróleo, as instalações químicas e as reservas de urânio da Líbia ficam ao sul de Benghazi, a cidade "libertada". A faminta capital de Kadafi controla apenas recursos hídricos, de modo que uma divisão temporária da Líbia, cuja possibilidade talvez Kadafi tenha considerado, seria insustentável.

Líbios e estrangeiros com os quais falei ontem disseram estar convencido de que ele enlouqueceu, mas estavam mais revoltados contra o filho dele Saif al-Islam. "Achávamos que Saif seria a nova luz, o liberal", disse um empresário líbio. "Agora percebemos que é mais louco e mais cruel do que o pai." O pânico que se apoderou do que resta da Líbia de Kadafi estava evidente no aeroporto. Na multidão que lutava para conseguir uma passagem, um homem, segundo o testemunho de um dono de concessionária da Toyota, foi espancado de tal forma que "sua cabeça se despedaçou".

Conversando com líbios em Trípoli e com estrangeiros no aeroporto, é evidente que nas ruas da capital não foram usados nem tanques nem blindados. Ataques aéreos atingiram Benghazi e outras cidades, mas não a capital. Entretanto, todos falaram numa onda de saques e de incêndios cometidos por líbios que achavam que com a queda de Benghazi, Kadafi estaria acabado e o país estaria entregue à anarquia.

No centro da cidade, o comércio estava em grande parte fechado. Todos os escritórios de empresas estrangeiras fecharam as portas, até mesmo as companhias aéreas, assim como todas as padarias que eu vi. Há inúmeros boatos de que membros da família de Kadafi tentam fugir para o exterior. Quanto à informação de William Hague de que Kadafi teria fugido para a Venezuela, ela foi desmentida. Falei com vários líbios que acreditavam que Burkina Faso seria seu único abrigo viável. Duas noites atrás, um jato particular líbio aproximou-se do aeroporto de Beirute solicitando autorização de pouso, mas a autorização foi negada quando a tripulação rejeitou identificar os oito passageiros a bordo. E, anteontem, a TV Al-Jazira informou que um voo da Libyan Arab Airlines com a filha de Kadafi, Aisha, a bordo não teve permissão para pousar em Malta.

Kadafi é acusado pelos muçulmanos xiitas do Líbano, Iraque e Irã pelo assassinato do imã Moussa Sadr, uma personalidade carismática que aceitou um convite para visitar Kadafi, em 1978 e, depois de uma aparente briga a respeito de dinheiro, nunca mais foi visto. Assim como um jornalista libanês que o acompanhara na viagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É REPÓRTER

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