'El Chapo' comprou sua fuga, diz analista

Enquanto o México busca ajuda internacional para capturar Joaquín "El Chapo" Guzmán e oferece US$ 3,8 milhões por informações sobre o seu paradeiro, especialistas se perguntam como o chefão do cartel de Sinaloa pôde escapar pela segunda vez tão facilmente de um presídio de segurança máxima e acreditam que o narcotraficante tenha comprado sua fuga junto a autoridades do país.

Jéssica Otoboni , O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2015 | 02h02

Para Patrick McNamara, professor de história da América Latina da Universidade de Minnesota, fugas como essa exigem a participação de agentes de Estado. "Pessoas de dentro da prisão sabem dos plano de fuga. Para ajudarem os presos, são ameaçados, recebem dinheiro dos criminosos ou, mais provavelmente, uma combinação das duas coisas", explica.

O dinheiro é um facilitador, por isso Pablo Emilio Escobar, um dos traficantes mais poderosos do mundo nas décadas de 70 e 80, escapou da prisão na Colômbia, em 1992. Dono de um patrimônio avaliado em US$ 13 bilhões no auge de sua carreira (com direito a presença na lista dos homens mais ricos do mundo da revista Forbes), acumulou sua fortuna com o tráfico de cocaína.

Escobar era conhecido por sua política de "dinheiro ou chumbo", a partir da qual mantinha em sua folha de pagamento políticos, juízes e policiais que aceitavam pagamentos para não serem executados. Com as organizações paramilitares determinadas a encontrá-lo, se entregou, em 1992, depois que o Congresso da Colômbia aprovou uma emenda constitucional proibindo a extradição de colombianos para os EUA.

Escobar transformou a prisão em salão de festas, com quadros e móveis importados, onde ele recebia frequentemente prostitutas de luxo. Quando o governo colombiano ameaçou intervir, o traficante fugiu e só foi encontrado 15 meses depois, quando foi assassinado durante uma emboscada em Medellín.

O mexicano Amado Carrillo Fuentes foi outro bilionário que fez fama no universo do tráfico. Acumulando US$ 25 bilhões com métodos semelhantes aos de Escobar, gastou milhões para manter-se longe das autoridades e ordenar a execução de seus inimigos. Apesar de nunca ter sido preso, utilizou-se de um método pouco ortodoxo para driblar a polícia: submeteu-se a uma operação plástica para mudar de aparência. Seu plano falhou e ele acabou morrendo na mesa de cirurgia, em 1997.

Já o traficante colombiano Juan Carlos Ramírez Abadía foi mais bem-sucedido. Não só sobreviveu à cirurgia como ainda fez outras 77 plásticas no rosto e no corpo durante os três anos que passou escondido no Brasil. Além de seu envolvimento no tráfico de cocaína, é acusado de mandar matar mais de 300 pessoas na Colômbia. Hoje, está preso nos EUA, onde cumpre pena de 25 anos.

Ideias inusitadas e perigosas para enganar as autoridades acabam conferindo certa fama para o criminoso, como foi o caso de "El Chapo". "A logística de certas fugas é impressionante, mas é apenas uma distração", diz McNamara. Geralmente, esses criminosos já são conhecidos pelos crimes que praticavam e a fuga só traz os seus nomes à tona novamente.

McNamara cita o caso de Dwight Worker como um dos mais curiosos entre os fugitivos famosos. "A fuga dele (Worker) vestido de mulher foi impressionante", diz. O americano foi preso em 1973 por posse de cocaína, recebeu uma sentença de cinco anos, mas cumpriu apenas dois. Seu plano de fuga foi simples, mas eficaz. Raspou a barba, colocou uma peruca, se maquiou e vestiu peças de roupas femininas que conseguiu contrabandear para dentro da cadeia. Saiu da penitenciária como se fosse uma das visitantes de outros prisioneiros, sem ser reconhecido.

A fuga de Pascal Payet, também conhecido como Kalashnikov Pat, além de inusitada foi cinematográfica. Preso por assassinato em uma tentativa frustrada de assalto e sentenciado a 30 anos de prisão, Payet foi resgatado da prisão por um grupo de amigos em um helicóptero. Como se isso não fosse o bastante, ainda foragido, ele voltou à mesma prisão, dois anos depois, também de helicóptero, para ajudar na fuga de três amigos.

Após o feito, foi capturado e encarcerado novamente. No entanto, em 2007, quatro homens mascarados sequestraram um piloto, roubaram um helicóptero, pousaram no telhado da prisão onde Payet estava e ele fugiu mais uma vez.

"Orquestrar fugas como essas sem que ninguém perceba parece impossível. Mas, na maioria das vezes, a polícia local, o Exército e as pessoas ligadas às penitenciárias são instruídas a não investigar atividades suspeitas", diz McNamara. Ele cita o caso de "El Chapo" e explica que, por ter muitas informações sobre corrupção na política mexicana, não seria interessante mantê-lo na prisão ou mesmo levá-lo a julgamento.

Apesar de, na maioria dos casos citados, as fugas envolverem traficantes, McNamara afirma que a questão mais importante não é como os presos fogem, mas a falha na guerra contra as drogas liderada pelos EUA. "O dinheiro que financia o cartel de Sinaloa vêm do consumo de drogas em território americano", diz.

As pessoas acreditam, segundo o professor, que os mexicanos são violentos e corruptos, quando o verdadeiro problema está na política proibicionista, que causa mais violência e leva ao encarceramento em massa. "A proibição do álcool, nas décadas de 1920 e 1930, nos EUA, não funcionou. Não se deve acreditar que a mesma abordagem funcionará hoje."

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