Fernando Llano/AP
Fernando Llano/AP

Fugindo da crise, cada vez mais professores universitários deixam a Venezuela

Segundo sindicato, 1,6 mil docentes das 5 principais universidades abandonaram seus postos nos últimos 4 anos; apenas 10% do professores da principal instituição do país têm um único emprego

O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2015 | 09h29

CARACAS - Depois de perder a maior parte de seus jovens profissionais talentosos, que foram em busca de empregos com melhores salários em países mais estáveis, a Venezuelana agora luta contra a debandada dos professores que haviam treinados esses jovens.

Professores universitários no país bolivariano - que vive uma das maiores crises desde que Hugo Chávez venceu sua primeira eleição, há quase 16 anos -  estão abandonando seus postos de trabalho em massa por se sentirem incapazes ou não dispostos a sobreviver com salários que beiram os US$ 30 por mês quando convertidos na taxa do câmbio paralelo, amplamente utilizado no país.

Atualmente, o salário mínimo na Venezuela é de 7.324 bolívares, cerca de US$ 1.162 na taxa preferencial do dólar, de 6,30 bolívares, mas menos de US$ 25 quando convertido no mercado ilegal - que determina o preço de muito produtos no país. 

No passado, o salário dos professores venezuelanos era suficiente para que eles comprassem carros e casa e as universidades pagavam - e insistiam - para que eles fizessem cursos no exterior para se desevolverem. Mas, na última década, apenas os professores que estavam na parte de baixo da tabela de pagamento tiveram aumentos reais, o que significa que a diferença de renda entre os educadores seniores e juniores desapareceu e todos estão recebem um salário insignificante similar.

São centenas de professores que abandonaram seus postos nos últimos anos, e este ritmo tem acelerado recentemente, segundo o sindicato dos professores. Mais de 700 dos cerca de 4.000 que davam aulas na respeitadíssima Universidade Central da Venezuela (UCV), em Caracas, pediram demissão nos últimos quatro anos. Alguns encontraram empregos com melhores salários para trabalharem com petróleo na própria Venezuela, mas outros optaram pela vida acadêmica no exterior.

Se consideramos as outras quatro principais universidades do país, o número é ainda mais alarmante: outros 900 professores deixaram seus postos no mesmo período. A Federação de Professores de ensino superior na Venezuela espera divulgar ate julho dados definitivos sobre a quantidade de docentes que deixaram seus postos nos últimos anos.

O sindicato dos professores alerta que este êxodo terá uma implicação imediata na redução da qualidade do ensino e da pesquisa nas instituições do país. "Vamos sentir as consequências disto nas próximas gerações", afirmou o professor de biologia Pedro Rodriguez, de 52 anos, que trabalha como pesquisados na Universidade de Chicago durante um período sabático de seu emprego na UCV. Atualmente, Rodriguez está considerando a possibilidade de aposentar-se e continuar nos Estados Unidos.

O ministério de Educação Superior da Venezuelana não respondeu aos pedidos de explicação sobre o êxodo de professores feito pela agência Associated Press.

O governo socialista venezuelano, iniciado há 16 anos pelo então presidente Hugo Chávez, tem enfatizado que promoveu uma "revolução" também nas universidades do país, que oferecem educação gratuita para milhares de estudantes que não teriam condições de pagar pelos estudos. 

Enquanto isso, as instituições autônomas recebem menos atenção e têm seus orçamentos estrangulados. O governo oferece fundos para as instituições autônomas, mas não as dirige diretamente. As instituições autônomas são livres como as universidades revolucionárias, mas eles também são muito mais academicamente rigorosas e seletivas, fora do alcance daqueles que não são os melhores alunos.

 

Victor Márquez, presidente da associação de professores da UCV, diz que o governo tem achatado as tabelas salariais dos professores e cortado partes do orçamento - a universidade teria recebido apenas 39% do orçamento previsto em 2015.

No campus da Universidade Central, os alunos se queixam de que as aulas que eles querem não são oferecidas, e que seus professores estão desmoralizados. "A universidade está passado por tempos ruins e, mais cedo ou mais tarde, a qualidade da educação vai sofrer", diz Hasler Iglesias, aluno de engenharia química.

Muitos dos professores que ainda estão no país precisam complementar suas rendas com trabalhos em meio período. Atualmente, apenas 10% dos docentes da UCV trabalham exclusivamente na universidade.

Há menos de uma semana, para evitar uma grande greve nacional dos professores de ensino superior, o governo de Nicolás Maduro aprovou um aumento entre 30% e 70% dos salários dos docentes, mas os valores foram considerados "insuficientes" pela maior parte da categoria. 

Vizinhos. O déficit de professores universitários com doutorado em outros países da América Latina também contribuiu para o aumento de docentes venezuelanos que deixam seus cargos.

Entre os lugares que mais aceitam esses venezuelanos está o Equador, que criou um programa inovador para combater a fuga de cérebros, a fim de dar o seu país a oportunidade de competir globalmente. Esse projeto também contempla a importação de especialistas de outros países.

"Países como o Equador se beneficiam da tragédia venezuelana", opina Rodriguez. Para o venezuelano, essa situação vai "transcender gerações". "Vão pagar pelos erros das políticas públicas, marcadas pela mesquinharia."

Para a associação de professores da UCV, a atual fuga de professores é resultado das políticas dos governos de Chávez e Maduro. "Há um projeto político que se caracteriza pela destruição das instituições que têm uma postura crítica, que é formadora do pensamento livre e que tem uma posição contrária à política governamental", afirmou Márquez. / AP

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