Ivor Prickett/NYT
Ivor Prickett/NYT

Fugindo de uma guerra moderna, sírios procuram abrigo em ruínas antigas

Famílias se espalham pelas colinas do noroeste do país, uma região ainda fora do controle do governo de Bashar Assad

Ben Hubbard / The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

AL-KFEIR, SÍRIA — Conforme o sol se punha, crianças com roupas sujas e sapatos surrados conduziam ovelhas pelos altos muros de pedra de um assentamento bizantino abandonado há mais de mil anos, levando-as a uma antiga caverna próxima onde os animais passariam a noite.

A roupa suja estava pendurada perto da parede semicilíndrica de uma igreja centenária em ruínas. Vegetais cresciam entre os restos de duas portas retangulares ornamentadas com padrões de folhas entalhadas. Espalhadas por ali estavam pedras gigantes do que antes fora uma cidade extensa.

Foi aqui, no vasto sítio arqueológico de al-Kfeir, na Síria, onde Abu Ramadan e sua família buscaram abrigo há mais de um ano após fugir de um ataque do governo sírio.

Eles estão aqui desde então.

Ramadan, de 38 anos, disse que se importava pouco com a história do local como um centro comercial e agrícola, mas apreciava as paredes robustas que amorteciam o vento e a abundância de pedras cortadas que uma família que havia perdido tudo poderia usar para reconstruir uma nova vida.

“Nós construímos com as ruínas”, disse ele, apontando para um galinheiro e um fogão a lenha. “Nós também nos tornamos ruínas.”

Como a guerra civil de 10 anos da Síria deslocou milhões de pessoas, famílias como a de Ramadan buscaram refúgio de uma guerra moderna atrás das muralhas de dezenas de aldeias antigas espalhadas pelas colinas do noroeste do país, uma região ainda fora do controle do governo de Bashar Assad.

Desde que seus proprietários originais as deixaram entre os séculos 8º e 10º, essas ruínas permaneceram em condições notavelmente boas por mais de mil anos, suas estruturas de pedra resistindo em grande parte à passagem de impérios e ao impacto do vento e da chuva.

Mas o conflito atual da Síria impôs novas ameaças a esses locais com suas igrejas com colunas, casas de vários andares e elegantes balneários. Suas fachadas estão agora marcadas por balas, seus pilares destruídos por ataques aéreos e suas paredes de pedra calcária são usadas como proteção por soldados, rebeldes e jihadistas que lutam pelo futuro do país.

Milênios de habitação humana deixaram a Síria repleta de locais históricos que datam das eras helenística, romana, bizantina e otomana. A Unesco, agência cultural das Nações Unidas, designou seis sítios do Patrimônio Mundial na Síria, incluindo, em 2011, as ruínas no noroeste, chamadas de Aldeias Antigas do Norte da Síria.

O uso desses locais como campos informais de refugiados, temem os arqueólogos, representa uma ameaça formidável para o futuro, à medida que as famílias acrescentam novas paredes, colocam tendas e carregam pedras.

“As paredes nos protegem do vento, do frio e de tudo o mais”, disse Abdulaziz Hassan, de 45 anos, cuja família mora em uma tenda dentro dos restos do Templo de Zeus Bomos, de 1.800 anos, próximo ao vilarejo de Babuta.

Hassan, um jardineiro antes da guerra, havia se mudado repetidamente com sua família para fugir dos avanços do governo em território rebelde, finalmente estabelecendo-se nas ruínas porque não precisavam pagar aluguel como aqueles que armaram tendas em terras privadas.

“Para onde mais podemos ir?” ele disse. “Onde quer que você vá, você tem que pagar.”

Os restos de três paredes do templo elevavam-se sobre sua tenda, e a encosta ao redor era marcada por pilares tombados e pedras gigantes com esculturas e inscrições gregas.

A guerra também danificou locais históricos em outras partes da Síria.

O Crac de Chevaliers, um dos castelos mais bem preservados do mundo, estava cheio de entulho quando o governo o confiscou dos rebeldes em 2014.

E depois que o grupo jihadista Estado Islâmico assumiu o controle das ruínas majestosas de 2 mil anos da cidade de Palmira, execuções foram realizadas em seu teatro romano.

Os locais históricos no noroeste da Síria, perto da fronteira com a Turquia, receberam menos atenção antes da guerra. Eles eram tão numerosos e tão pouco desenvolvidos como locais turísticos que a área parecia um museu a céu aberto.

Os visitantes podiam andar pelos restos de templos pagãos e das primeiras igrejas cristãs, descer até depósitos subterrâneos escavados nas encostas rochosas e admirar desenhos intrincados em torno das janelas e cruzes esculpidas nas portas.

O governo sírio as rotulou como “As Cidades Esquecidas” para atrair visitantes.

Construídos entre os séculos 1º e 7º, elas fornem “um testemunho notável da vida rural” durante a transição do Império Romano pagão para os bizantinos cristãos, disse a Unesco.

As cidades antigas foram abandonadas ao longo dos séculos subsequentes por causa das mudanças no clima, e mudanças nas rotas comerciais e controle político - mas não por causa da guerra, uma das principais razões pelas quais foram tão bem preservadas, disse Amr Al-Azm, um ex-oficial de antiguidades da Síria e agora professor de história do Oriente Médio na Shawnee State University em Portsmouth, Ohio.

Por enquanto, são casas de último recurso para famílias agredidas.

“Sempre que chove, ficamos molhados”, disse Sihan Jassem, de 26 anos, cuja família havia se mudado três vezes desde que fugiu de sua casa e acabou em uma tenda improvisada com cobertores e lonas em meio às ruínas de Deir Amman, um vilarejo bizantino. “As crianças brincam nas ruínas e tememos que as pedras caiam sobre elas”, disse ela. Sua irmã, viúva pela guerra, morava em uma tenda próxima com cinco filhos.

O sol refletia nas flores silvestres molhadas e ovelhas vagavam entre as pedras espalhadas, pastando perto de uma parede antiga onde um romântico moderno escreveu em spray: "Seu amor é como um remédio".

Mas Jassem não encontrou nenhum romance em seu entorno. “Gostaríamos de ter ficado em nossas casas”, disse ela, “e nunca ter visto essas ruínas”.

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