Fugindo do Estado Islâmico, refugiados usam o Brasil para tentar chegar à Europa

Grupos de iraquianos e sírios foram detidos em Caiena e Natal quando tentavam embarcar

Jamil Chade, correspondente em Genebra, e Andrei Netto, correspondente em Paris, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2015 | 10h48

GENEBRA E PARIS - Refugiados iraquianos estão utilizando o Brasil como rota para tentar chegar à Europa. Segundo observadores da ONU que diariamente acompanham o fluxo de milhares de pessoas que deixam a Síria e o Iraque por conta do avanço do Estado Islâmico (EI), os imigrantes seguem a pé do Iraque ou Síria para a Turquia, onde embarcam para São Paulo. No Brasil, tentam embarcar para a Europa, comprando passaportes falsos de grupos criminosos turcos e até usando a Guiana Francesa como escala.

Segundo os refugiados informaram à Justiça no Brasil, "dezenas de famílias" já seguiram esse trajeto com sucesso desde 2014.

Os primeiros casos foram identificados ainda no final de 2014, principalmente por agências que se ocupam dos refugiados na Europa, que dificultou a entrada em seu território aos estrangeiros. O custo da viagem e o périplo deixaram os especialistas preocupados. Logo, a informação chegou até as autoridades europeias que, rapidamente, passaram a controlar de forma mais ostensiva o embarque de pessoas em diversos aeroportos, inclusive em Caiena.

No final de janeiro, os primeiros resultados dessa nova postura das autoridades já começaram a ser identificados. Um grupo de 16 cristãos iraquianos foi bloqueado na Guiana, vindos do Brasil e tentando embarcar para Paris. Eles são todos de Mossul, no norte do Iraque, e deixaram suas casas em agosto do ano passado diante do avanço do EI. Fiéis de uma religião pré-islâmica, os yazides seriam perseguidos pelos islamistas radicais.

O grupo comprou passaportes falsos de contrabandistas e se apresentaram como israelenses e gregos, num pacote que custou a cada pessoa 14 mil euros para ser retirado da guerra e chegar à Europa. Depois de um percurso total que soma mais de 10 mil quilômetros, o objetivo dos imigrantes seria desembarcar no aeroporto de Orly, na periferia de Paris, e de lá embarcar para a Alemanha, onde se uniriam a outro grupo de yazidis que pediu asilo no país.

Em 25 de janeiro, quando tentavam embarcar para a Europa, eles foram retidos pela Polícia de Fronteiras (PAF) na França. Durante dois dias, as autoridades francesas negociaram a deportação para o Brasil, o último país de passagem. "Houve de fato um grupo de iraquianos que entrou no Brasil com passaportes fraudados de nacionalidades que não precisam de visto para entrar no país. Os franceses os detiveram em Caiena, na Guiana, e pensaram em deportá-los para o Brasil, mas decidiram finalmente dar asilo", confirmou ao Estado uma fonte diplomática do Itamaraty.

Após a recusa do governo brasileiro em aceitá-lo de volta, o grupo recebeu auxílio da Cimade, uma organização não-governamental francesa que presta auxílio a refugiados políticos e imigrantes. Um pedido de asilo político foi feito na semana passada ao Escritório Francês para a Proteção de Refugiados e Apátridas (Ofpra). O caso é tratado pelo Ministério do Interior, que ontem não se manifestou sobre o assunto. À espera de uma posição, os iraquianos estão retidos em um hotel de Caiena.

Natal - Eles, porém, não são os únicos. Cinco refugiados sírios foram presos em Natal, tentando embarcar para a Holanda com passaportes israelenses no dia 6 de novembro de 2014. O grupo está hoje na Cadeia Pública de Natal Raimundo Nonato, na Zona Norte de Natal. Em seus passaportes, Ahmed, Salah Aldeen, Masoud, Ahmed e Azzam ganharam nomes hebreus. O caso foi revelado pela reportagem do jornal do Rio Grande do Norte, Novo Jornal.

Ao Estado, Marconi Macedo, presidente da Comissão de Relações Exteriores da OAB de Natal e que acompanha o caso, contou que os refugiados revelaram à Justiça do Rio Grande do Norte que tomaram a rota brasileira depois de terem conhecimento de que "dezenas de famílias" já teriam entrado na Europa usando os aeroportos brasileiros.

"O que eles nos relatam é que a rota virou uma novidade entre os refugiados sírios que se recusam a entrar em barcos para cruzar o mediterrâneo e que tem gerado centenas de mortes", disse. "Esse caso foi identificado pela PF. Mas dezenas de outros conseguiram embarcar", apontou Macedo.

Segundo ele, cada um dos refugiados pagou cerca de 10 mil euros para intermediários turcos que passaram a organizar as rotas alternativas. "Eles saíram do oeste da Síria, entraram no Líbano e, dali, foram até a Turquia", contou. "O que sabemos é que são organizações turcas que montaram o plano de fuga, com um voo até o Brasil, onde eles recolheriam os documentos falsos para poder entrar na Europa como israelenses", disse.

Na semana passada, um juiz de Natal negou um pedido da OAB para que os refugiados aguardem uma decisão sobre seu caso em liberdade. A Justiça diz que antes quer informações das embaixadas da Síria e Israel.

Alternativa - Na ONU em Genebra, os exemplos do uso do Brasil como rota é um reflexo da recusa de muitos refugiados de embarcar em barcos podres pelo Mediterrâneo e diante da dificuldade em chegar à Europa por caminhos tradicionais.

"Com as dificuldades para conseguir asilo na Europa, os refugiados estão sendo obrigados a tomar rotas cada vez mais perigosas, longas e caras", declarou William Spindler, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. "O Acnur pede que se busquem opções legais para esses refugiados irem para a Europa", declarou.

Para a ONU, parte do problema está na Europa. Diante de uma guerra na Síria que fez milhões de refugiados e de um número recorde de imigrantes chegando em 2014, o bloco endureceu seus controles nas fronteiras.

O resultado é que países que servem como portas de entrada, como Grécia e Itália, acabaram sendo inundados por iraquianos e sírios. Dados publicados esta semana pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados indicam que 43,5 mil pessoas desembarcaram na Grécia em 2014, fugindo de conflitos e na esperança de entrar na UE. O volume é 280% superior ao de 2013 e cerca de 60% deles vem da Síria ou Iraque.

 

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