Fugitivas do Estado Islâmico

Meninas capturadas por grupo fundamentalista são usadas como troféus pelos jihadistas

KIRK, SEMPLE , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2014 | 02h02

A garota de 15 anos, aos gritos e aterrorizada, recusou-se a largar a mão da irmã. Dias antes, membros do Estado Islâmico (EI) haviam arrancado as meninas de suas famílias e agora pretendiam separá-las e distribuí-las como espólio de guerra.

Os jihadistas que escolheram a menina de 15 anos como troféu pressionaram uma pistola contra sua cabeça e prometeram atirar. No entanto, somente quando o homem colocou uma faca no pescoço da sua irmã de 19 anos ela cedeu, seguindo para a etapa seguinte de uma odisseia sinistra de sequestros e abusos nas mãos do EI.

As duas irmãs estavam entre as milhares de meninas e jovens da minoria yazidi capturadas em agosto pelo EI no norte do Iraque. A menina de 15 anos integra um pequeno grupo de sequestradas que conseguiu fugir, trazendo consigo histórias de uma indústria da escravidão cruelmente organizada.

Os relatos das meninas tratam de garotas separadas de suas famílias que são divididas ou trocadas entre os homens do EI, obrigadas a se converter ao islamismo, sujeitas a casamentos forçados, além de serem repetidamente estupradas. Enquanto muitas das vítimas ainda vivem em áreas do norte e oeste do Iraque, algumas foram enviadas para a Síria ou outros países.

Cinco sequestradas que fugiram recentemente concordaram em conceder uma entrevista no fim de outubro. Quatro estavam em Khanke, cidade de maioria yazidi no norte do Iraque, e a quinta encontrava-se na cidade Dohuk. Dezenas de milhares de refugiados da etnia yazidi buscam refúgio nessa região, alojando-se em acampamentos ou em casas de parentes.

No início, a garota de 15 anos pareceu indiferente. "Quero que meu nome seja usado quando o EI ler esse relato. Será uma vingança para mim", afirmou antes de voltar atrás, aconselhada pelo advogado que a acompanhava, permitindo somente o uso das suas iniciais, D.A.

O próprio EI admitiu abertamente manter uma indústria da escravidão. Num artigo publicado na Dabiq, revista online do grupo em inglês, os jihadistas afirmam que estão revivendo um costume justificado pela sharia, a lei islâmica. "Um quinto das escravas foram transferidas para a autoridade do EI para serem repartidas como 'khums' - imposto sobre espólios de guerra - e as demais divididas entre os combatentes que lutaram em Sinjar", dizia o artigo.

Os yazidis seguem uma religião influenciada por uma mistura de crenças, incluindo o zoroastrismo, o judaísmo e o islamismo. Para o EI, eles são pagãos que adoram o demônio e merecem a escravidão ou a morte. Ao forçarem mulheres e meninas yazidis a se casar com membros do EI e se tornar suas "concubinas", explica o artigo, o grupo protege seus combatentes contra o adultério.

O EI já sequestrou mais de 7 mil pessoas - das quais, 5 mil são yazidis -, a maior parte mulheres e crianças, segundo a equipe de gerenciamento de crises do Sinjar. No mês passado, a ONG Human Rights Watch chamou o sequestro, abuso e morte sistemática dos yazidis de crimes contra a humanidade.

Das cinco meninas que entrevistei, nenhuma disse ter sido estuprada enquanto estava em poder do EI. Elas admitiram, porém, que tiveram contato com outras meninas que sofreram abusos até mesmo por mais de um homem ao mesmo tempo.

Para D.A., a liberdade só veio na segunda tentativa de fugir de seus captores. Ela foi ajudada por um jovem árabe e por uma família curda, que depois receberam cerca de US$ 3,7 mil cada pela fuga. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.