REUTERS/Federico Rios
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Papa intensifica sua agenda política no primeiro dia de visita à Colômbia

Em Bogotá, Francisco promove acordo com guerrilha e tenta amenizar polarização que ameaça paz colombiana; pontífice viaja na sexta-feira para Villavicencio, um dos locais mais afetados pelo conflito, onde se encontrará com vítimas da guerra civil 

Fernanda Simas, Enviada Especial / Bogotá, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2017 | 13h32
Atualizado 07 Setembro 2017 | 21h08

BOGOTÁ - No primeiro dia de sua viagem à Colômbia, o papa Francisco intensificou sua agenda política. Em discurso na Casa de Nariño, sede presidencial, ele pediu nesta quinta-feira, 7, que os colombianos se afastassem da “vingança e da busca de interesses particulares”. O papa também desafiou os líderes do país a promulgarem leis justas para resolver as causas da desigualdade que levam à violência.

Citando o “momento importante” da Colômbia, em referência ao acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), ex-guerrilha que na semana passada lançou seu partido político, Francisco criticou o uso político do acordo de paz, apostando no peso do Vaticano para atenuar a polarização a respeito do tema.

Na quarta-feira, horas antes da chegada do papa à Colômbia, a classe política colombiana voltou a entrar em confronto após o ex-presidente Álvaro Uribe, opositor ao acordo, enviar uma carta ao pontífice criticando o pacto e mostrando “preocupação” com a situação do país. Na carta, Uribe voltou a dizer que os acordos permitiram a impunidade dos ex-guerrilheiros.

O presidente Juan Manuel Santos, anfitrião do papa no palácio presidencial e adversário de Uribe, colocou o acordo com as Farc no centro da visita do pontífice. “Obrigado por vir, nos estimulando a dar o primeiro passo para a reconciliação. Hoje, a Colômbia é o único país do mundo onde as armas são substituídas por palavras.”

Em seguida, Santos se referiu aos esforços necessários para concretizar os acordos e rebateu as críticas. “Só nos falta dar o passo renovador, o passo para a reconciliação. De nada vale silenciar os fuzis se continuamos armados no coração. De nada vale acabar a guerra se nos vemos como inimigos.”

Para o cientista político Frédéric Massé, a visita de Francisco depois da assinatura do acordo de paz com as Farc é justamente um pedido ao povo colombiano para que continue o processo de paz.“Simbolicamente, é muito importante porque a Igreja teve um papel discreto, mas muito ativo nas negociações de paz”.

A chegada do pontífice, segundo Massé, ganha mais tom político ao se levar em conta o acordo de cessar-fogo bilateral feito entre o governo colombiano e o Exército de Libertação Nacional (ELN), única guerrilha restante no país. “O cessar-fogo foi uma forma de pressão para que realmente se alcance um acordo. É um cessar-fogo de 102 dias que pode ser prorrogado e é sabido que a Igreja terá um papel na sua verificação”.

Nesta quinta, o ministro da Defesa, Luiz Carlos Villegas, também se referiu ao cessar-fogo dizendo que era algo “inimaginável”. Villegas estava otimista, mas explicou que será uma negociação mais difícil. “O ELN tem uma consciência de si mesmo com mais autoestima do que as Farc. São agentes em seu comando central que acreditam em vias autoritárias, mas o cessar-fogo dá uma esperança nova.”

Ao encerrar seu pronunciamento, no palácio presidencial, Francisco lembrou o mesmo trecho da obra Cem Anos de Solidão, do colombiano Gabriel García Marques, lido por Santos e Rodrigo Londoño, um dos líderes das Farc, na cerimônia da assinatura do acordo de paz. “Onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham por fim e para sempre uma segunda oportunidade sobre a terra.”

O ponto central do acordo com as Farc está nas vítimas. Desde as negociações, o tema foi colocado como o mais importante. A visita de Francisco também reforça a questão. Hoje, o papa estará em Villavicencio, capital do Departamento (Estado) de Meta e uma das regiões mais afetadas pelo conflito, onde ele se encontrará com vítimas de minas terrestres.

Santos destacou a importância da presença de Francisco no local. “Em Villavicencio, ele (papa) não apenas encontrará as vítimas desse conflito, mas beatificará dois bispos que foram vítimas dessa guerra.”

Ecologia

Outro tema do papa ontem foi a defesa do meio ambiente. “A Colômbia é uma nação abençoada. A natureza pródiga não apenas permite a admiração de sua beleza, mas também convida a um cuidadoso respeito por sua biodiversidade”, disse Francisco. “A Colômbia é o segundo país do mundo em biodiversidade e, ao visitá-lo, vemos o quão bom foi o Senhor ao lhes presentear tanta variedade de flora e fauna”, disse o papa, que mais tarde discursou para cerca de 40 mil pessoas na Praça Bolívar, em Bogotá. 

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