Fujimori é sentenciado a 25 anos

Justiça peruana considera ex-presidente ?autor intelectual? de 25 homicídios, lesões corporais e sequestros

Reuters, AP e Luciana Alvarez, LIMA, O Estadao de S.Paulo

08 de abril de 2009 | 00h00

Uma sala especial da Suprema Corte do Peru condenou ontem o ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000) a 25 anos de prisão por violações de direitos humanos. Após 16 meses de julgamento, o ex-presidente foi considerado o autor intelectual de 25 homicídios qualificados, lesões graves a quatro pessoas e dois sequestros realizados por grupos de extermínio. "As acusações estão provadas, para além de toda dúvida razoável", afirmou o juiz César San Martín, presidente da corte.Fujimori é o primeiro ex-presidente constitucional do mundo a ser condenado por violações dos direitos humanos em seu país. O ex-líder, que sempre alegou inocência, não demonstrou decepção com a sentença e já deu entrada no pedido de apelação. Fujimori tomou notas durante as três horas de leitura da deliberação. "Interponho recurso de anulação", afirmou após ouvir a decisão do tribunal. Em seguida, virou-se para trás, sorriu e acenou para a plateia da corte. Estima-se que o processo de apelação leve quatro meses. Se a sentença for mantida, Fujimori, de 70 anos, poderá ficar na prisão até fevereiro de 2032 - ele já está preso há dois anos. Mas, segundo juristas, ele pode obter benefícios legais e sair na metade do tempo. Fujimori também foi condenado a pagar indenização a 29 vítimas."As provas de que ele tinha conhecimento sobre o grupo Colina (esquadrão de extermínio paramilitar) foram bastante fortes. E as respostas da defesa quase sempre eram políticas, alegando que Fujimori fez muito pelo bem do país", afirmou ao Estado a advogada do Human Rights Watch Maria McFarland, que acompanhou o processo. Para ela, o julgamento de Fujimori é uma vitória do Estado de direito e um exemplo para o mundo. A condenação foi comemorada pelo Centro para a Justiça Transnacional, que divulgou nota dizendo que a sentença "consolida a luta contra a impunidade na América Latina", e pela Anistia Internacional, que classificou a decisão da Justiça peruana como "histórica". As famílias das vítimas também demonstraram satisfação. "O direito à verdade foi respeitado. Fez-se justiça", disse Gisela Ortiz, irmã de uma das vítimas.Centenas de peruanos pró-Fujimori saíram às ruas para protestar. "Chino, amigo, o povo está contigo", gritavam fujimoristas. Por sua ascendência japonesa, Fujimori foi apelido de El Chino pela população. Keiko Fujimori, filha do ex-presidente, conclamou "manifestações pacíficas" contra a decisão da Justiça (mais informações ao lado).Durante seu governo, Fujimori comandou o país com mão de ferro e teria autorizado a criação do esquadrão paramilitar, conhecido como grupo Colina, cujo objetivo seria acabar com a guerrilha Sendero Luminoso. As operações criminais teriam sido comandas por Vladimiro Montesinos, chefe da inteligência e braço direito de Fujimori. Apesar das acusações de corrupção e violações aos direitos humano, ainda hoje o ex-presidente tem grande popularidade. Filho de imigrantes japoneses e sem passado político até a campanha presidencial, Fujimori conseguiu enfraquecer o Sendero e a guerrilha guevarista Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) e acabou com a hiperinflação que afligia o país.Fujimori já tinha uma condenação a 6 anos de prisão por abuso de poder. Ainda pesam sobre ele várias acusações de corrupção, pelas quais ainda poderá ser julgado - suborno de deputados de oposição, destruição de provas, compra de apoio da mídia, escutas ilegais e desvio de US$ 15 milhões para "indenizar" Montesinos. Mas, pela lei do Peru, as penas não são cumulativas e ninguém pode ser sentenciado a mais de 25 anos. Montesinos também está preso, cumprindo pena de 15 anos por corrupção. CondenaçãoMassacre em Barrios AltosEm novembro de 1991, o grupo paramilitar Colina mata 15 pessoas em uma festa, entre eles uma criança de 8 anos; 4 ficam feridosMassacre de La CantutaEm julho de 1992, o grupo Colina sequestra, executa e esconde corpos de 9 estudantes e 1 professor da Universidade La Cantuta Detenções ilegaisExército sequestra duas pessoas em 1992: o jornalista Gustavo Gorriti e o empresário Samuel Dyer Ampudia Outras acusaçõesSuborno de deputados de oposição Destruição de provas da casa de Montesinos Compra de apoio de meios de comunicação Escutas ilegais de políticos, jornalistas e empresários Desvio de US$ 15 milhões para premiar Montesinos

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