Keiko Fujimori/via REUTERS
Keiko Fujimori/via REUTERS

Cenário: Fujimori e a tarefa de tentar reconciliar seus herdeiros políticos

Ex-presidente parece estar diante de dois cenários: reconciliação familiar ou ruptura entre os irmãos Keiko e Kenji, com o consequente enfraquecimento do partido Força Popular

O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2018 | 11h00

LIMA - A reconciliação entre seus filhos e herdeiros políticos, Keiko e Kenji, é a primeira tarefa que Alberto Fujimori deverá resolver, depois de recuperar sua liberdade graças ao polêmico indulto concedido pelo presidente Pedro Pablo Kuczynski.

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O futuro do partido fujimorista Força Popular, principal força política do Peru, está nas mãos do ex-mandatário de 79 anos, que em setembro disse na prisão que queria morrer com a tranquilidade de ver seus filhos unidos.

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“Vai se reunir com os filhos em conflito, disse que queria aproximá-los. Agora o que vai acontecer é uma espécie de tentativa do pai de resolver os problemas familiares”, afirmou o analista político Fernando Tuesta, ao descrever quais devem ser os primeiros passos do ex-presidente após deixar a clínica onde ficou internado por 12 dias.

Keiko, de 42 anos e duas vezes candidata à presidência do Peru, lidera o partido e a ala dura do fujimorismo. Já Kenji, de 37 anos e legislador mais votado no país, encabeça o setor pragmático, que busca o entendimento com Kuckynski e foi aparentemente o negociador do indulto.

Há um consenso entre os analistas de que Alberto Fujimori, filho de japoneses e formado em matemática, está diante de dois cenários: reconciliação familiar ou ruptura entre os irmãos, com o consequente enfraquecimento do partido. A herança não é pequena, já que o fujimorismo representa mais de um terço do eleitorado.

“Se Keiko não aceita as reclamações de seu irmão, como a eliminação dos dirigentes e congressistas que criticaram ele e seu pai, a possibilidade de uma ruptura é alta”, enfatizou Tuesta.

Estratégia

As diferenças entre os irmãos foram notórias desde o início do governo de Kuczynski, em julho de 2016. Kenji assumiu uma posição rebelde em respeito à cúpula do partido que ele ajudou a fundar em 2010 com a irmã.

O conflito alcançou seu ponto mais alto quando ficou evidente a estratégia de Kenji de cooperar com Kuczynski para impulsionar o indulto a seu pai. Isso lhe rendeu uma sanção disciplinar do partido, que aplicou diretamente a estratégia de Keiko de priorizar a via judicial para liberar seu pai, uma fórmula inviável que buscava fortalecer a liderança de Keiko e isolar Kenji.

Diante desses acontecimentos, Kenji conta há meses com o apoio do pai e da antiga guarda do fujimorismo. Nos últimos 12 dias, os dois irmãos visitaram separadamente seu pai na Clínica Centenário Peruano Japonesa, de onde recebeu alta nesta quinta-feira, 5. Ambos não aparecem juntos há mais de um ano. Os outros dois filhos de Fujimori, Hiro e Sachi, não estão envolvidos na política.

“O clã é um problema: dois filhos na política ao mesmo tempo pode ser uma vantagem. Mas qual é o bom e qual é o mau? De certa forma, é uma fraqueza”, destaca o analista político Mirko Lauer.

Fujimori foi hospitalizado no dia 23 de dezembro em razão de uma hipotensão e uma arritmia cardíaca, segundo seu médico pessoal, Alejandro Aguinaga. Kuczynski concedeu o indulto ao ex-presidente no dia seguinte por motivos “humanitários”, entre rumores de um acordo político com Kenji em troca da derrubada da moção de destituição do mandatário, que apoiava Keiko e a qual o Congresso peruano votou no dia 21 de dezembro.

Dez legisladores fujimoristas, liderados por Kenji, se abstiveram impedindo que se chegasse aos votos para destituir Kuczynski, o que parecia certo, em razão da maioria do Força Popular no Congresso - 71 cadeiras de um total de 130.

Há alguns anos, a prisão de Fujimori parecia ser a última etapa política desta família que incendeia o cenário político peruano desde 1990. Mas Keiko e seu irmão menor Kenji debateram o caso, encorajados pelo pai, para resgatar a honra da família e reivindicar a liberdade do patriarca.

Fujimori esteve preso por 12 anos como parte de uma condenação de 25 anos por corrupção e crimes contra a humanidade, perpetrados durante seus 10 anos polêmicos de governo (1990-2000). Foi sentenciado pelos assassinatos cometidos por esquadrões da morte militares em 1991 e 1992 na zona de Barrios Altos e na Universidade La Cantuta, que deixaram 25 mortos, incluindo uma criança.

Além disso, os peruanos criticam Fujimori pela corrupção no país, mas muitos também agradecem a ele por ter acabado com as guerras e modernizado a economia. “O futuro do fujimorismo, que coincidência, depende de sua reconciliação”, ironizou a cientista política María Alejandra Campos em uma coluna do jornal peruano El Comercio. / AFP

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