REUTERS/Kyodo
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Fukushima tenta se reerguer sete anos após maior tragédia nuclear do Japão

O acidente na usina nuclear de Fukushima, em 11 de março de 2011, está para os japoneses como o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 para os americanos.

Ricardo Grinbaum, Fukushima, Japão, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2018 | 05h00

Masao Uchibori, governador da Província de Fukushima, conta dia a dia a passagem do tempo desde que três reatores da usina nuclear Fukushima Dai-Ichi explodiram há quase sete anos, espalhando uma nuvem de poeira radioativa pela região. “2416 dias já se passaram”, disse Uchibori, em uma apresentação recente na Casa do Japão, em São Paulo. “Muitas coisas já foram feitas, mas ainda sofremos na carne os efeitos do acidente. Vivemos entre a luz e a sombra.”

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O acidente nuclear ocorreu em 11 de março de 2011, data que está para os japoneses como o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 para os americanos. Primeiro, o Japão foi atingido por um terremoto de 9 graus na escala Richter. Em seguida, um tsunami com ondas de 10 metros passou por cima das cidades costeiras no nordeste do país. A montanha de água invadiu a usina e destruiu o sistema interno de geração de energia. Sem eletricidade, não foi possível resfriar o combustível nuclear. 

As autoridades dizem que a radiação liberada foi pequena e nenhum morador adoeceu ou morreu. Mas a vida nunca voltou ao normal. Antes do acidente, a Província de Fukushima tinha 2 milhões de habitantes. Era conhecida como uma área tranquila e turística, que preservava o jeito tradicional do Japão, belas paisagens de montanhas, castelos de samurais e comida de boa qualidade, principalmente arroz, pescados e frutas.

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Apesar de toda a campanha do governo para dizer que não há mais riscos, a população encolheu e está hoje em 1,8 milhão de habitantes. Mais de 50 mil pessoas vivem na condição de refugiados, em residências provisórias, com auxílio financeiro de Tóquio. O governo fala em cortar os subsídios para forçá-las a voltar às cidades de origem, mas muitos resistem porque têm medo dos efeitos da radiação. Em algumas cidades, a população corresponde a apenas 3% da que havia antes do acidente. “Ainda não recuperamos a confiança da comunidade da área da usina”, diz Stauro Toyomoto, diretor de assuntos internacionais da Agência de Recursos Naturais e Energia do Japão. 

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O Japão faz um grande esforço para não repetir em Fukushima a experiência russa do acidente nuclear de Chernobyl. Em Chernobyl, o governo cobriu o reator com uma tampa de concreto e tocou a vida adiante. Já o governo japonês prometeu desmontar a usina, descontaminar a região e trazer a população de volta. “O governo definiu que terá a natureza de volta”, diz Noriuchi Tadashi, da agência de reconstrução de Fukushima. Mas ninguém sabe ao certo quando a tarefa será concluída.

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A descontaminação dos campos e das cidades é um empreendimento gigantesco. Uma camada do solo de toda área usada para plantações foi arrancada, embalada em sacos de plástico preto e está empilhada em áreas de depósito provisório de lixo atômico. Pés de pera e pêssegos foram lavados um a um, assim como 418 mil casas e 11.500 instalações públicas, que levaram um banho para tirar a poeira radioativa. Segundo autoridades, a área contaminada pela radiação, que chegou a 30% da província, hoje corresponde a 3%.

Os gastos são de US$ 20 bilhões por ano. Hoje, o principal desafio é como tirar o combustível nuclear derretido dos três reatores mergulhados na água para resfriar. Nunca foi feito um trabalho como esse antes. Cientistas japoneses e estrangeiros se uniram para arrumar uma solução, mas os avanços são lentos. Em novembro, pela primeira vez, um robô driblou os escombros, resistiu às altas doses de radiação e enviou imagens dos bastões derretidos de combustível nuclear de um dos reatores. Mas o próximo passo é visto com cautela.

Ninguém arrisca dizer quanto tempo mais será necessário para desarmar a armadilha nuclear. Estima-se que pode levar de 30 a 40 anos. Enquanto isso, as autoridades terão de arrumar uma solução sobre o que fazer com a água usada para resfriar os reatores, que se acumula em tanques gigantescos na área da usina. A população local não aceita que a água seja jogada no mar, apesar de o governo garantir que já não está mais contaminada. Além disso, é preciso arrumar abrigo definitivo para o lixo radioativo do campo. 

Para especialistas, o nível de radiação presente hoje no ambiente é baixo. “O risco potencial à saúde dos moradores diminuiu bastante, talvez só afete os empregados da usina, mas a empresa deve tomar as precauções necessárias”, disse ao Estado David Lochbaum, cientista especializado em energia nuclear, autor do livro Fukushima: The Story of a Nuclear Disaster, em que denuncia erros e omissões que levaram ao acidente.

O estigma, porém, continua forte. Antes do acidente, a exportação de alimentos era de 152 toneladas por ano. Agora, depois de um imenso esforço para convencer outros países a reduzir as restrições, está em 66 toneladas. Mesmo no Japão, os preços de alguns produtos de Fukushima são mais baixos do que os de outras províncias porque parte dos consumidores desconfia da qualidade da comida.

Os turistas voltaram às montanhas, cidades históricas e termas de Fukushima, mas as visitas correspondem a 90% do que eram antes do acidente. Enquanto isso, o turismo no restante do Japão cresceu 846%, com a chegada dos chineses. 

O turismo e a produção de comida eram fundamentais na economia de Fukushima. Agora, a província quer dar a volta por cima com novas indústrias. Com os reatores desligados, aposta em usinas eólicas e geotérmicas para chegar a 100% de energia de fontes renováveis até 2040. A província planeja instalar indústrias de alta tecnologia e campos de testes de robôs nas cidades costeiras. E quer exportar alimentos com selo de qualidade internacional. Mas ainda há uma grande área de sombra e desconfiança. “Nossa palavra-chave é desafio”, diz o governador Uchibori.

 

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Turistas voltam a visitar Fukushima, mas com cautela

Governo busca convencer os próprios japoneses de que não há mais risco de se visitar a região, conhecida por sua culinária e o saquê

Ricardo Grinbaum, Fukushima, Japão, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2018 | 06h00

Os turistas estão voltando a  Fukushima. Em 2016, a região atraiu 50 milhões de visitantes, cerca de 90% do total registrado antes do acidente nuclear. Mas, analisados em detalhe, os números ainda mostram a dificuldade de recuperar a imagem da tradicional região turística do  Japão. Enquanto Fukushima luta para voltar ao que era, o restante do país viu o número de turistas, em particular chineses, crescer 846% em sete anos.

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Assim como ocorre com a produção de comida, o governo está em campanha para convencer os próprios japoneses, e os estrangeiros, de que não há mais risco de se visitar a região. As medições de radiação, segundo autoridades, estão iguais ou abaixo das maiores cidades do mundo, com exceção de uma área ao redor da usina, equivalente a 3% do tamanho da Província de Fukushima.

Na campanha de relações públicas, o governo japonês quer levar duas modalidades de esportes da Olimpíada de 2020, beisebol e softbol, para serem disputadas em Fukushima. Os jogos de beisebol serão disputados no estádio que fica na capital da província, a 90 minutos de trem-bala de Tóquio e a 88 quilômetros da usina.

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Depois do acidente, Fukushima recebeu muitos visitantes na categoria “dark tourism”, pessoas que gostam de conhecer locais de massacres ou tragédias. Agora, luta para voltar a ter uma vida normal.

Entre suas principais atrações estão paisagens de campos e montanhas cobertas por cerejeiras, além de sítios históricos. Ali estão 150 termas. A região também era conhecida por sua culinária e produção de saquês de primeira linha.

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A província tem algumas referências culturais importantes, como a cidade histórica de Aizuwakamatsu, onde fica o Castelo de Tsurugajo, réplica de uma construção de 1384. O prédio tem um museu com armas e objetos dos samurais. Em Fukushima também está o sítio histórico de Ouchijuku, cidade que servia de entreposto comercial no período Edo (1603-1868). As casas alinhadas, com telhados de palha, eram usadas pelos viajantes para descanso e alimentação. 

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Ricardo Grinbaum, Fukushima, Japão, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2018 | 06h00

Você comeria arroz produzido em Fukushima? O Japão quer convencer os países que ergueram barreiras aos alimentos produzidos na província de que não há mais problemas. O acidente ocorreu depois que um tsunami invadiu as instalações da usina, em 11 de março de 2011, destruiu os geradores de energia usados para resfriar o combustível nuclear e provocou a explosão de três reatores. Uma nuvem de poeira radioativa escapou para a região vizinha e água contaminada vazou para o Pacífico.

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Nos últimos anos, o vazamento radioativo foi contido, o governo raspou o solo usado para a produção de arroz e lavou cada pé de pera e pêssego da região. Agora, os produtores rurais e pescadores travam uma batalha para provar que os alimentos são saudáveis.

Mais de 40 países adotaram algum tipo de barreira contra produtos de Fukushima depois do acidente. De lá para cá, 24 já removeram as restrições, segundo o Ministério de Negócios Exteriores do Japão. Em novembro, a União Europeia decidiu aliviar as barreiras, mas países vizinhos como Coreia do Sul, China, Taiwan e Cingapura mantêm as restrições, principalmente aos frutos do mar. 

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O Brasil adota restrições desde a época do acidente, com exigência para que cada alimento apresente análise laboratorial sobre a presença dos elementos radioativos césio 134 e césio 137. Segundo a Anvisa, a política pode ser revista “com base em dados atualizados de monitoramento dos níveis de radionuclídeos nos alimentos provenientes de Fukushima a serem apresentados pelas autoridades japonesas”.

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O governo japonês está em campanha para provar que os efeitos do acidente ficaram para trás. No fim do ano, levou um grupo de jornalistas de cinco países, incluindo o Estado, para uma visita aos produtores e laboratórios de testes de alimentos de Fukushima.

Na cidade de Motomiya, a 60 quilômetros da usina, os produtores estão ansiosos para provar que superaram o acidente. “Os fazendeiros continuam a produzir, mas precisam de mercado, temos de convencer o mundo de que nossa produção é segura”, diz Endou Katsou, chefe do posto de fiscalização de arroz na cidade.

Para tranquilizar os consumidores, toda saca de arroz produzida na região de Fukushima passa por equipamentos que medem a radiação – 10 milhões de sacos de arroz são inspecionados por ano. Segundo autoridades, desde 2015 não foi encontrada nenhuma amostra com radiação acima de 100 Bq por quilo (padrão de segurança japonês). Cada saco de arroz tem um código de barras para que sua origem possa ser rastreada pelos consumidores, incluindo o registro do teste de radiação.

Desde o acidente, foram realizados mais de 1,73 milhão de testes de alimentos, segundo o governo. No entanto, nem os próprios japoneses têm confiança. Pesquisas mostram que 13% dos consumidores têm medo de comprar comida e um terço não sabe que os alimentos da província são monitorados.

A situação mais complicada é a dos pescadores. É impossível descontaminar o mar como se fez nas plantações de arroz. Na época do acidente, vazaram 520 toneladas de água contaminada por seis dias. Para evitar novos vazamentos radioativos, foi construída uma parede de gelo ao redor de usina. 

Não há mais registros de radiação na água. Mas os peixes que foram contaminados continuaram circulando. A pesca foi praticamente proibida na região. Recentemente, os pescadores voltaram à atividade, mas com um tom de cautela. Ali não se fala que a pesca voltou, mas que está em fase “experimental”. 

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Na cidade de Soma, os pescadores estão voltando à ativa, mas não saem todos os dias para o mar. Em abril, retomaram a venda dos peixes por leilão. Quando chegam ao porto, deixam a mercadoria em bandejas, para que comerciantes façam suas ofertas em pedaços de papel. Quem pagar mais leva, embora o peixe ainda não esteja pronto para consumo. Antes disso, técnicos da cooperativa dos pescadores retiram peixes das bandejas e levam para um laboratório. Ali, são cortados e colocados em uma máquina de chumbo, onde se faz a medição da radiação. Se for detectado algum problema, eles são recolhidos.

“Aqui era uma ótima região para a pesca, porque atrai peixes de corrente quente, do sul, e fria, do norte”, diz Fujita Tsuneo, diretor da estação experimental de pesca em Soma. “Agora, nossa pesca se limita a 8% do que era antes do acidente.” Segundo ele, a geração de peixes contaminada pelo acidente ficou velha, morreu, e os filhotes não apresentam sinais de radiação. Das 100 espécies banidas para pesca em 2011, 11 continuam proibidas.

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A Agência de Reconstrução de Fukushima diz que, nos últimos anos, nenhuma amostra de arroz, vegetais, frutas ou pescados excedeu os limites de radiação estabelecidos pelo Japão, hoje mais rigorosos que os internacionais. As exceções foram cogumelos selvagens (0,26% das amostras) e peixes de rios (0,69%) das áreas de florestas onde é restrita a produção de alimentos.

A Organização da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO) fez análises com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e referendou os controles. “A comida de Fukushima é segura, mas continuaremos monitorando para certificar que continue assim”, disse a FAO, em nota ao Estado. O esforço, porém, não foi suficiente para apagar o estigma do nome de Fukushima. 

 

 

 

 

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Moradora de Fukushima diz: 'Perdemos nossa cidade, perdemos nossa vida'

Yoko Shoji, de 70 anos, que morava a 3,3 quilômetros da usina nuclear de Fukushima, conta o drama dos moradores após o acidente

O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2018 | 05h30

Fukushima - Morávamos em Okuma, em frente ao Pacífico. Nossa casa ficava a 3,3 quilômetros da 1F (usina nuclear). Às 2h46 da tarde do dia 11 de março, fomos atingidos pelo terremoto. Às 15h27, veio o tsunami. Em 12 de março, às 6h09 da manhã, a prefeitura nos orientou a sair da cidade. Só deu para levar dinheiro e o carimbo (usado como assinatura no Japão).

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Chegamos em Tamura às 11h30. Às 3h36 da tarde, a unidade 1 da usina explodiu. Mas o povo da cidade não sabia da explosão, porque estávamos ocupados com a mudança. Nos dias seguintes, só soubemos o que estava acontecendo pela mídia. Em 14 de março, fomos levados para a fábrica Denso. Usávamos plástico para forrar o chão de concreto e sentimos muito frio porque era inverno. 

Quando deixamos nossas casas, achávamos que não demoraríamos muito, só trouxemos as roupas do corpo. Em 5 de abril, a fomos levados para viver em Aizuwakamatsu. Com a explosão, perdemos tudo. Descobrimos que era uma mentira que não ocorreria um acidente nuclear. Sofremos muito com aquele sentimento de perda. Embora tivéssemos os bens básicos, não sabíamos como passar os dias. Aos poucos, encontramos outras pessoas e decidimos começar algo novo. 

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Eu era desenhista de malhas. Resolvi fazer o urso de pano AiQ para levar nossa mensagem para o mundo. Já vendemos 6 mil ursinhos. Sempre que alguém perguntar de onde vem o brinquedo, vão contar a história de Fukushima. Nossa mensagem é que não podemos fazer algo que não podemos controlar. Temos de criar um mundo seguro e pacífico. 

Hoje, volto para minha casa duas, três vezes por ano. Podemos ficar 2 ou 3 horas. Não posso voltar a viver lá, a não ser que a 1F seja completamente desativada. Mas o governo e a Tepco (dona da usina) já revisaram o calendário muitas vezes, ninguém sabe quando vai acontecer.

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Não tenho confiança no que dizem. Ninguém morreu no acidente, mas o sofrimento mental é enorme. Perdemos contato com parentes e amigos. Nossa agenda ficou menor. Não sabemos se nossos amigos estão vivos, porque a província não informa. Diz que precisa proteger a privacidade das pessoas. Perdemos a cidade, toda nossa vida. Não quero mais energia nuclear, mas o governo trabalha para exportar usinas para outros países. Nosso caso deveria ser uma lição para o mundo. 

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