Fumaça branca numa chaminé de Jerusalém

Análise: Samuel Feldberg

É DOUTOR EM CIÊNCIA POLÍTICA, MEMBRO DO GRUPO DE ANÁLISE DE CONJUNTURA INTERNACIONAL DA USP , O Estado de S.Paulo

18 de março de 2013 | 02h07

No limite do prazo para uma definição, os três principais vencedores das eleições israelenses chegaram a um acordo e Binyamin Netanyahu liderará a partir de hoje o 33.º governo israelense.

Apesar da manutenção do Likud como principal partido, houve importantes mudanças, decorrentes da significativa perda de mandatos. Talvez a mais dramática seja, de acordo com a promessa de campanha do vitorioso novato Yair Lapid, que os religiosos ortodoxos não participarão deste governo. E os religiosos nacionalistas, aqueles que pregam a continuação e a expansão dos assentamentos na Cisjordânia, agora têm seu próprio partido liderado por Naftali Benet e se afastaram do Likud.

O que esperar deste governo? No aspecto interno; pela primeira vez na história do país (com exceção dos governos compartilhados) o Ministério das Finanças não é controlado pelo premiê. Netanyahu lutou arduamente para garantir o Ministério das Relações Exteriores e teve de abrir mão de praticamente todo o controle sobre a economia, assim como do Ministério da Educação. Os novos partidos que formam a coalizão serão responsáveis pelo orçamento, construção de moradias - um dos principais elementos dos protestos populares nos últimos anos - e poderão definir que recursos receberá ou não a população religiosa, outro item controvertido da campanha eleitoral.

A questão econômica será crucial; o governo que se encerra deixa um enorme déficit no orçamento que terá de ser controlado por meio de aumento de impostos ou eliminação de benefícios, ambas medidas impopulares. O novo orçamento terá de contemplar as enormes mudanças previstas no cenário militar, com investimentos maciços em sistema de defesa antimísseis em um momento em que também os EUA provavelmente diminuirão a sua contribuição. E a forma mais barata e eficaz de aumentar a oferta de moradia é oferecê-la na Cisjordânia, o que atenderia a parte do eleitorado do Likud, assim como daquela parcela da população que não se importa com as implicações políticas de tal medida.

Tzipi Livni, a ex-líder do partido Kadima, elegeu-se e seu novo partido tornou-se o primeiro a aderir à nova coalizão; será a nova ministra de Justiça e Netanyahu prometeu-lhe a condução das negociações com os palestinos. Mas a função tem pouquíssimas chances de ser exercida, já que a guinada à direita do Likud-Israel Beiteinu e a inclusão de Benet no governo formam um sólido grupo de direita que não terá nenhum interesse em avançar nas negociações. Nas ultimas semanas esvaziaram-se as previsões de uma terceira Intifada e, ainda que continuem os incidentes esporádicos de apedrejamento de carros dos colonos e violações de direitos humanos dos palestinos, a trégua com o Hamas mantém-se em vigor e o Hezbollah e o Irã estão muito ocupados na Síria.

O presidente Barack Obama é esperado na região, mas, conforme declarou, "somente para ouvir" e, portanto, dos Estados Unidos também não se espera nenhuma intervenção que possa alterar o status quo. Talvez israelenses e palestinos resignem-se a retomar o contato, ainda que seja para que não os acusem de intransigência, mas ninguém espera que o processo dê frutos; pelo contrário, são cada vez mais intensas em Israel as demandas por uma retirada unilateral, com a manutenção do controle militar sobre o Vale do Jordão e a definição de uma fronteira que pode ou não permitir a criação de um Estado palestino na Cisjordânia.

Ainda no cenário interno, o número de ministros foi reduzido de 31 para 22 e uma das primeiras medidas do novo Parlamento provavelmente será a elevação da barreira eleitoral para 4%, o que forçará os partidos árabes a se unirem nas próximas eleições, pois nenhum deles teria conseguido se eleger no recente pleito.

Após o longo período de duras negociações que levaram à formação deste novo governo, a maior dificuldade estará na solução dos antagonismos intrínsecos aos novos sócios. Ainda que a preocupação com a condição econômica da classe média e o desejo de distribuir o custo social também entre a parcela ortodoxa da população sejam interesses comuns, a luta pela sobrevivência em um cenário hostil, e as diferentes percepções em questões de politica externa podem ser suficientes para abreviar a duração do novo governo. E os partidos ortodoxos, alijados do poder e das decisões sobre alocação de recursos, considerando-se traídos pelo Likud, estarão à espreita, ao lado dos trabalhistas, atuando como oposição ativa. Netanyahu talvez esteja na posição mais cômoda: se seus novos parceiros forem bem-sucedidos no manejo da economia, certamente tomará para si os louros da vitória. Caso contrário, não faltará a quem responsabilizar pelas frustrações.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.