Haitham EL-TABEI / AFP
Haitham EL-TABEI / AFP

Fumar, símbolo de liberdade para as sauditas

Agora, mulheres do reino podem fumar em público, um passo a mais em sua emancipação

Haitham el-Tabei / FRANCE PRESSE, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2020 | 04h00

Rima se instala em um café de Riad, olha em volta para comprovar se não há ninguém conhecido, pega seu cigarro eletrônico e começa a fumar, um direito concedido há pouco tempo e um passo a mais no longo caminho rumo à emancipação das mulheres na Arábia Saudita.

“Fumar em público é uma liberdade recentemente adquirida. Sinto-me livre e feliz por fazê-lo”, disse a mulher de 27 anos, usando um pseudônimo.

Como as feministas ocidentais dos anos 20, esta saudita considera fumar uma ferramenta de emancipação. Também é um modo de testar os limites das liberdades concedidas às mulheres neste país ultraconservador pelo príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman.

As mulheres podem agora dirigir, obter passaporte sem o aval de um tutor masculino e ir a estádios ou espetáculos junto aos homens. No entanto, elas continuam sendo submissas a diversas restrições e não podem trabalhar em vários tipos de empregos.

Fumar, apesar de não ser proibido pela lei, não é bem visto pela sociedade conservadora. Rima, que começou a “experiência” em segredo dois anos atrás, ainda não ousa fumar diante de sua família, mas diz que está preparada para enfrentá-la.

“Não lhes direi que é meu direito, pois não entenderão que fumar é um direito tanto para os homens quanto para as mulheres”, disse a jovem vestida com uma túnica negra bordada com fios dourados e um véu bege sobre seu cabelo.

Nesse mesmo café, Najla - também um pseudônimo - reclama do fato de que muitas fumantes são consideradas uma “vergonha” para suas famílias. “A mulher de 26 anos acende um cigarro, afirmando que sua vontade é “desafiar a sociedade” e os olhares de “desprezo” dos quais às vezes é alvo.

“Fumo desde quando estudava”, conta Najla, em meio a mesas ocupadas por homens fumando. “Meu direito será totalmente respeitado quando minha família me aceitar como fumante”, disse, contando a seguir o caso de uma amiga cuja família a enviou a uma clínica de desintoxicação.

Cerca de 65% das estudantes do segundo grau fumam escondidas, revelou um estudo de 2015 da Faculdade de Medicina da Universidade Rei Abdulaziz, em Jeddah, publicado pelo jornal Arab News.

Em outro café de Riad, várias mulheres ocupam 5 das 15 mesas do local. Rolos de fumaça branca emergem sobre as abayas negras.

“A maioria de nossas clientes pede narguilé. Algo totalmente inimaginável uns três meses atrás”, diz um garçom. 

“O país esteve fechado por muitos anos e tudo estava proibido para as mulheres”, disse Heba, de 36 anos, fumante veterana.

“Nunca imaginei que poderia fumar narguilé em público com os homens”, disse uma mulher cujo véu transparente deixava entrever seu cabelo castanho.

Apesar de celebrarem os avanços obtidos, os defensores dos direitos humanos denunciam a persistente repressão contra as ativistas, várias delas detidas e submetidas a tortura e abusos sexuais, segundo suas famílias. O Ocidente pressiona pela libertação das ativistas, a maioria detida em 2018, antes do levantamento da proibição de dirigir.

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