Courtesy of Mike Mason
Courtesy of Mike Mason

Funcionário aposentado do FBI assumiu os volantes quando faltou motorista para os ônibus escolares

Mike Mason doa a maior parte de seu salário de motorista de ônibus para várias instituições de caridade

Por Sydney Page / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2021 | 05h00

Mike Mason foi um dos oficiais do FBI (polícia federal americana) de mais alto escalão do país. Agora, ele leva os alunos para a escola em um ônibus escolar amarelo todas as manhãs e todas as tardes. Não foi a virada na carreira que ele imaginou para si mesmo. Ele já foi o diretor-adjunto executivo do FBI, responsável por supervisionar todas as investigações criminais, entre outras funções.

“Metade dos recursos operacionais do FBI estavam sob minha responsabilidade”, disse Mason, de 63 anos , de sua casa em Midlothian, Virgínia. Mas, em sua aposentadoria, ele sentiu o desejo de ajudar quando soube que não havia motoristas de ônibus escolares suficiente. 

Desde o fim de abril, Mason tem trabalhado para as escolas públicas do Condado de Chesterfield como motorista de ônibus. Embora seja drasticamente diferente de sua profissão anterior, “sinto o mesmo senso de dever”, disse ele.

Todas as manhãs, por volta das 5h30, Mason inspeciona cuidadosamente seu ônibus - examinando o interior e o exterior - para garantir que é seguro para os alunos viajarem. “Eu o deixo pronto para rodar”, disse ele. “Isso não é uma hipérbole: estou sorrindo todos os dias que ligo o ônibus.”

Ele reúne nove alunos de 10 a 18 anos e os deixa no Faison Center em Richmond, que oferece programas educacionais para crianças autistas. Mason diz entender a luta que os alunos, principalmente aqueles com deficiência, enfrentaram durante a pandemia do coronavírus. Foi o que o estimulou a abandonar sua curta aposentadoria para dirigir um ônibus escolar.

A ideia surgiu em janeiro deste ano, quando viu uma reportagem local sobre a necessidade desesperada de motoristas de ônibus escolares.

Mason aprendeu que a severa escassez se tornou uma crise nos distritos escolares de todo o país. Dado que a idade média dos motoristas de ônibus escolares é consideravelmente mais alta do que a idade média dos trabalhadores americanos, muitos motoristas decidiram se aposentar quando as escolas passaram para o ensino remoto, enquanto outros não queriam correr o risco de uma possível infecção continuando a trabalhar pessoalmente quando as aulas fossem retomadas.

Na esteira da escassez em massa, os distritos escolares tiveram pouca escolha a não ser adotar soluções criativas. Massachusetts implementou a Guarda Nacional para preencher a lacuna, e a Pensilvânia, Carolina do Sul e Ohio querem seguir o exemplo em breve.

Para atrair motoristas em potencial, as empresas de ônibus escolares começaram a propor treinamento gratuito e bônus de inscrição, enquanto vários distritos, incluindo os de Baltimore, estão oferecendo pagamento aos pais para transportar seus próprios filhos para a escola.

Mason - que se aposentou do FBI em 2007 e se juntou à Verizon como chefe de segurança até se aposentar novamente em dezembro de 2020 - queria ajudar. “Estava pronto para voltar a fazer algo que desse à minha vida um ritmo regular", diz. Além disso, como pai de dois filhos adultos, a quem ele chamava de "as coisas mais preciosas do mundo para mim", Mason disse que "sempre quis fazer algo com crianças".

Mason cresceu no lado sul de Chicago e foi criado por um pai solteiro que era motorista de caminhão para o conselho de educação. “Isso é parte do que me faz sorrir todas as manhãs enquanto dou a partida neste ônibus”, disse ele. "É a conexão com meu pai."

Em sua juventude, Mason ensacou mantimentos, estocou prateleiras, bombeou gasolina, lavou carros e cortou grama para poder pagar a faculdade.

Ele se formou na Universidade Wesleyan de Illinois em 1980, depois se juntou ao Corpo de Fuzileiros Navais, onde serviu por quase cinco anos antes de entrar na Academia do FBI em 1985. Era um sonho antigo. “Eu queria fazer parte de algo que fosse maior do que eu”, disse ele. “A realidade excedeu tudo que eu sempre sonhei. Adorei cada dia da minha experiência no FBI. ”

Mason se lembra de ter prendido uma escuta em seu corpo inúmeras vezes e ido disfarçado para prender traficantes de drogas em Hartford, Connecticut, onde morou por quatro anos. “Ganhar a confiança e a segurança de alguém e trabalhar contra eles foi empolgante, estimulante e às vezes assustador também”, disse ele.

Durante os 23 anos que passou no FBI, “deixei de ser um agente trabalhando em uma variedade de casos criminais, para ser um supervisor e, em seguida, subir na hierarquia”, disse ele. “Continuo sendo um dos quatro afro-americanos mais antigos da história do FBI e tenho muito orgulho disso.”

Em 2003, ele se tornou chefe do Washington Field Office. Então, como diretor assistente executivo responsável por investigações criminais, ele supervisionou 6,5 mil pessoas em Washington e 56 escritórios em todo o país. Ele também foi responsável pelas investigações cibernéticas do FBI, sua frota de mais de 100 aeronaves, a equipe de resgate de reféns de elite e 59 escritórios do FBI no exterior.

Em dezembro de 2007, Mason se sentiu pronto para uma mudança. Ele ingressou na Verizon em janeiro de 2008 para supervisionar os esforços de segurança global da empresa.

“Chega um momento em qualquer carreira em que é hora de virar a página, de fazer algo diferente”, disse ele. “O que eu mais amo em todas as minhas carreiras, incluindo dirigir um ônibus escolar, é que oferecem a oportunidade de aprender algo novo todos os dias.”

Apesar do currículo impressionante de Mason, ele não estava qualificado para se tornar um motorista de ônibus escolar logo de cara. Demorou várias semanas de treinamento para obter sua licença.

Mason tem conduzido alunos desde a primavera (Hemisfério Norte). Depois de concluir o treinamento, ele foi questionado se estaria disposto a transportar crianças com necessidades especiais. Ele respondeu: "Com certeza". “Isso aumentou minha capacidade de empatia exponencialmente”, disse Mason. “O que mais gostei foi de fazer descobertas.”

Momentos particularmente significativos incluem ver um aluno tímido sorrir pela primeira vez ou sorrir de orgulho quando uma criança acena para ele quando ele se aproxima da escola. “Essas crianças são como você e eu. Eles querem se realizar, eles querem ser o melhor que podem ser ”, disse Mason.

Ainda assim, embora dirigir um ônibus escolar tenha sido profundamente gratificante para Mason, ele não veio sem desafios. Alguns dias são "uma cacofonia de barulho e caos, e mal posso esperar para desligar o ônibus", disse ele. “Mas eu nunca saio com raiva. É outro dia e outra chance de tentar novamente. ”

Mason, que recentemente recebeu sua dose de reforço da vacina contra o coronavírus, disse que tenta não se preocupar com a pandemia enquanto dirige o ônibus. Ele está tomando todas as precauções necessárias para evitar a infecção, disse ele, e “estou optando por não morar em um frasco hermeticamente fechado”.

Mais do que tudo, Mason está focado no bem-estar dos alunos. “Quando eu entro naquele ônibus, eu tenho de estar dentro. Tenho que prestar atenção no que estou fazendo ”, disse ele. “Quero que os pais saibam que me preocupo com seus filhos.”

Embora haja poucos paralelos entre a posição anterior de Mason no FBI e seu trabalho atual, ele diz "que a semelhança é que estou fazendo algo que me interessa". "Metade do amor ao seu trabalho é a atitude que você traz para ele.”

Independentemente dos desafios que surgem com o trabalho, "esta é uma experiência que sempre vou lembrar e guardar com carinho", disse ele, acrescentando que é "extremamente grato" por estar em uma posição financeira boa para doar a maioria de seu salário para várias organizações de caridade.

De acordo com um representante das Escolas Públicas do Condado de Chesterfield, o pagamento inicial para motoristas de ônibus é de US$ 20,21 por hora, com bônus de até US$ 3 mil neste ano letivo, junto com outros incentivos financeiros.

Mason espera que sua mudança de carreira não linear inspire outros a reconhecer que "trabalho importante" vem em muitas formas, e se você é um executivo de um órgão governamental crítico ou um motorista de ônibus escolar, "todos nós contribuímos com tijolos para construir a catedral".

“Se você está procurando um trabalho fácil, não seja um motorista de ônibus escolar”, aconselhou Mason. “Mas se você está procurando um trabalho importante e gratificante que realmente importa - e esse trabalho é importante - este pode ser para você.” Afinal, levar os alunos de e para a escola, disse Mason, é muito mais do que manobrar um grande ônibus amarelo. “Estou transportando o futuro da América”, disse ele. “O que poderia ser mais importante do que isso?” 

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