‘Funcionário’ da Al-Qaeda busca ‘novos desafios’

Após ser repreendido por ignorar ordens, terrorista 'se demite' e organiza outro grupo

RUKMINI CALLIMACHI / AP, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2013 | 02h04

Depois de anos tentando discipliná-lo, os líderes da sucursal norte-africana da Al-Qaeda enviaram uma carta ao seu subalterno mais temperamental. Em algumas páginas contundentes, eles reclamam que ele não responde aos seus telefonemas, não lhes envia relatórios de gastos, ignora os encontros e rejeita cumprir ordens. Principalmente, afirmam que ele não realizou nenhuma operação espetacular, apesar dos recursos colocados à sua disposição.

O subalterno, o terrorista internacional Moktar Belmoktar, respondeu à maneira dos empregados talentosos, com um enorme ego, como em corporações de qualquer parte do mundo: demitiu-se e criou o próprio grupo.

E em poucos meses, comandou duas "operações" de grande porte, que causaram a morte de 101 pessoas: um dos maiores sequestros da história numa central de gás operada pela British Petroleum na Argélia, em janeiro, e atentados a bomba simultâneos numa base militar e em uma mina francesa de urânio em Níger, na semana passada.

A carta da Al-Qaeda, encontrada pela Associated Press em um imóvel que havia sido ocupado por seus combatentes no Mali, permite prever a ascensão de um líder terrorista extremamente ambicioso, que se desvinculou do comando regional porque desejava manter contato direto com a Al-Qaeda central. E dá um vislumbre dos trabalhos internos de uma organização bastante estruturada, que exige mensalmente de seus comandantes relatórios de suas despesas e dos desacordos internos que levaram à sua ascensão.

A ruptura também pressagia um ambiente terrorista no qual jihadistas carismáticos podem realizar ataques diretamente em nome da Al-Qaeda, independentemente de estar ou não sob seu comando.

Segundo Rudolph Atallah, ex-chefe de contraterrorismo do Pentágono na África e um dos três especialistas que autenticaram a carta de dez páginas datada de 3 de outubro, a correspondência pode explicar o que ocorreu na Argélia e em Níger, os dois ataques cuja autoria Belmoktar reivindicou num fórum jihadista.

"Ele enviou uma mensagem diretamente a seus ex-chefes na Argélia, dizendo: 'Sou um jihadista. Mereço estar separado de vocês'. E também enviou uma mensagem para a Al-Qaeda, dizendo: 'Veja, aqueles idiotas no norte são incompetentes. Falem comigo diretamente'. E com esses ataques ele chamou muita atenção para sua pessoa", disse Atallah.

Vínculos com cúpula. Nascido no norte da Argélia, Belmoktar, que tem em torno de 40 anos, viajou para o Afeganistão com 19 anos, de acordo com sua biografia online. Ele afirma ter perdido um olho em uma batalha e ter treinado em campos da Al-Qaeda, criando vínculos que lhe permitiriam, duas décadas depois, deixar a sucursal regional.

No decorrer dos anos, surgiram inúmeras notícias de que ele fora marginalizado ou expulso pela Al-Qaeda do Magreb Islâmico.

A carta recuperada em Timbuctu, uma das milhares de páginas de documentos internos escritos em árabe e descobertos pela AP no início do ano, sugere que ele sempre se manteve leal à AQIM até o ano passado e mostra a história do difícil relacionamento.

A carta, assinada pelo conselho da Shura do grupo, formada por 14 membros, o órgão dirigente, descreve o relacionamento com Belmoktar como "uma ferida sangrando" e critica sua proposta de se retirar e iniciar o próprio grupo.

"Sua carta contém muitas calúnias, insultos e zombarias", os integrantes do grupo escreveram. "Nós nos abstivemos de prosseguir nessa batalha verbal no passado, na esperança de que o indisciplinado pudesse ser colocado na linha por meios mais fáceis e mais brandos. Mas a ferida continuou a sangrar e na verdade o sangramento é cada vez maior, até que recebemos sua carta, pondo fim a qualquer esperança de estancar o sangue e curar a ferida."

Eles continuam, comparando seu grupo a "uma alta montanha diante de tempestades ferozes e ondas quebrando". Afirmam, por fim, que a proposta do terrorista "ameaça fragmentar a razão de ser da organização e destroçá-la". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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