REUTERS/Tom Brenner
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Casa Branca barra denúncia anônima de espião envolvendo Trump e Ucrânia

‘Washington Post’ revela que presidente teve conversa comprometedora com presidente ucraniano Volodymyr Zelenski; agente do serviço de espionagem considera diálogo ‘preocupante’ e protocola queixa

Greg Miller, Ellen Nakashima e Shane Harris, Washington Post

19 de setembro de 2019 | 09h52
Atualizado 20 de setembro de 2019 | 15h34

WASHINGTON - O jornal Washington Post revelou nesta quinta-feira, 19, que uma conversa do presidente dos EUA, Donald Trump, com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenski, foi considerada “preocupante” por uma agente do serviço de inteligência americano a tal ponto que uma denúncia anônima contra Trump foi registrada por ele, segundo dois ex-funcionários do governo familiarizados com o assunto ouvidos pelo Washington Post.  Não está claro o que ele teria prometido.

O caso traz novas questões sobre o manuseio de informações confidenciais pelo presidente americano e pode prejudicar ainda mais seu relacionamento com as agências de espionagem dos EUA. Um ex-funcionário ouvido pelo jornal disse que a comunicação foi feita por meio de um telefonema.

A Casa Branca não respondeu aos pedidos de comentários sobre o assunto. O gabinete do Diretor de Inteligência Nacional e um advogado representando o denunciante se recusaram a comentar o caso.

O inspetor-geral da Comunidade de Inteligência, Michael Atkinson, foi quem recebeu a denúncia. Ele a considerou crível e preocupante o suficiente para ser tratada como uma questão de "preocupação urgente", um limiar legal que exige a notificação das comissões de supervisão do Congresso.

Mas o diretor interino de Inteligência Nacional, Joseph Maguire, se recusou a compartilhar detalhes da suposta transgressão de Trump com os parlamentares, desencadeando uma disputa política e legal que se tornou pública e causou especulações de que o chefe de espionagem estaria protegendo de forma indevida o presidente.

Atkinson compareceu à Comissão de Inteligência da Câmara em uma sessão fechada. A audiência é o mais recente passo do presidente da comissão, Adam Schiff (democrata), para obrigar as autoridades de inteligência a divulgar os detalhes da denúncia ao Congresso.

Maguire concordou em testemunhar na mesma comissão na próxima semana, de acordo com um comunicado divulgado por Schiff. Ele se recusou a comentar a história.

"(O inspetor-geral) determinou que essa queixa é crível e urgente". A Comissão dá grande importância à proteção dos denunciantes e suas queixas ao Congresso", afirmou Schiff em comunicado divulgado na noite de quarta-feira

As possíveis interações

A queixa foi registrada no escritório de Atkinson em 12 de agosto, data em que Trump estava em seu campo de golfe em New Jersey. Os registros da Casa Branca indicam que Trump teve conversas ou interações com pelo menos cinco líderes estrangeiros nas cinco semanas anteriores, entre eles Zelenski, um comediante que havia sido eleito presidente da Ucrânia em maio. 

Os democratas já estavam investigando esse telefonema para determinar se Trump e seu advogado, o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, estavam ou não pressionando o governo ucraniano a ajudar na campanha republicana de 2020 – eles estariam tentando encontrar informações comprometedores sobre o filho do ex-vice-presidente dos EUA Joe Biden, que lidera as prévias democratas.

Entre essas interações, houve uma ligação para o presidente russo, Vladimir Putin, que a Casa Branca iniciou em 31 de julho. Trump também recebeu pelo menos duas cartas do líder norte-coreano, Kim Jong-un, durante o verão, descrevendo-as como "mensagens bonitas". 

Em junho, Trump disse publicamente que se opunha a certas operações de espionagem da CIA contra a Coreia do Norte. Referindo-se a uma reportagem do Wall Street Journal de que a agência havia recrutado o meio-irmão de Kim, Trump disse: "Eu diria a ele que isso não aconteceu sob meus auspícios".

Trump se reuniu com outros líderes estrangeiros na Casa Branca em julho, incluindo o primeiro-ministro do Paquistão, o primeiro-ministro da Holanda e o emir do Catar.

Preocupação antiga

O manuseio de informações secretas pelo presidente americano tem sido motivo de preocupação para as autoridades de inteligência dos EUA desde o início de sua presidência. Em maio de 2017, Trump revelou informações secretas sobre operações de espionagem na Síria a altas autoridades russas no Salão Oval, o que levou a uma corrida de funcionários da Casa Branca para conter possíveis danos.

Declarações e cartas trocadas entre os escritórios do Diretor Nacional de Inteligência (DNI) e a Comissão de Inteligência da Câmara nos últimos dias apontaram para a Casa Branca sem implicar diretamente o presidente.

Schiff disse que foi informado que a denúncia dizia respeito a "conduta de alguém fora da Comunidade de Inteligência". Jason Klitenic, conselheiro-geral do DNI, afirmou em uma carta enviada aos líderes do Congresso na terça-feira que a atividade no cerne da denúncia "envolve comunicações confidenciais e potencialmente privilegiadas".

A disputa colocou Maguire, que exerce o cargo temporariamente desde a renúncia de Daniel Coats no mês passado, no centro de um conflito politicamente perigoso com implicações constitucionais. Schiff exigiu a divulgação completa da denúncia. Mas Maguire defendeu sua recusa, afirmando que o assunto da reclamação está fora de sua jurisdição.

Defensores de Maguire contestaram a versão do líder democrata de que o diretor interino está subvertendo requisitos legais de seu cargo para proteger Trump e alegam que está em uma situação legítima e que ele deixou seu descontentamento claro para as autoridades do Departamento de Justiça e da Casa Branca.

A origem da disputa

Depois de receber a queixa em 12 de agosto, Atkinson a enviou, duas semanas mais tarde, a Maguire. Por lei, Maguire é obrigado a transmitir essas reclamações ao Congresso em até sete dias. Mas, nesse caso, ele se absteve de fazê-lo depois de pedir orientação jurídica às autoridades do Departamento de Justiça.

Em sinal de desconforto de Atkinson com essa situação, o inspetor-geral informou as Comissões de inteligência da Câmara e do Senado sobre a existência da denúncia - sem revelar sua substância - no início de setembro.

Schiff respondeu com indignação quase imediata, divulgado uma carta exigindo uma cópia da denúncia e avisando que estava preparado para intimar oficiais de inteligência dos EUA. 

Maguire afirmou que os advogados determinaram que não havia exigência de notificação porque a denúncia não constituía uma preocupação urgente "dentro da responsabilidade e autoridade" de seu escritório.

Especialistas jurídicos disseram que há cenários em que as comunicações de um presidente com um líder estrangeiro podem chegar ao nível de uma "preocupação urgente" pela comunidade de inteligência, mas também observaram que o presidente tem ampla autoridade para decidir unilateralmente quando tornar secreta ou pública informações.

Revelar como os Estados Unidos obtiveram informações confidenciais pode "comprometer meios e métodos de inteligência e potencialmente a vida das fontes", disse Joel Brenner, ex-inspetor-geral da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA).

Não ficou claro se o denunciante presenciou a comunicação de Trump com o líder estrangeiro ou soube do ocorrido por outros meios. Resumos dessas conversas geralmente são distribuídos entre funcionários da Casa Branca, embora o governo tenha imposto novos limites a essa prática após a revelação de Trump às autoridades russas. / W. POST

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