Funcionários da ONU cobravam propina de refugiados

A corrupção chega à Organização das Nações Unidas (ONU), vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2001. Hoje, a ONU reconheceu publicamente o envolvimento de seus funcionários em uma milionária rede de corrupção, escândalo que está abalando a entidade e gerando um mal-estar evidente entre aqueles que seriam os responsáveis por manter a paz mundial. Segundo um grupo de investigadores da própria ONU, funcionários do escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), no Quênia, estariam cobrando propinas dos próprios refugiados. De acordo com as investigações, para que um refugiado fosse simplesmente atendido pela ONU, teria que pagar US$ 25, e no caso de pedirem para serem abrigados pelo organismo internacional, deveriam desembolsar até US$ 6 mil. "Os funcionários aproveitavam que os refugiados, a maioria analfabetos, não sabiam como funcionava a ONU e que essa ajuda humanitária deveria ser dada gratuitamente a eles", explicou Dileep Nair, chefe das investigações. O resultado era de que muitos refugiados deixavam de ser atendidos por não contarem com recursos para fazer o pagamento. Outros voltavam depois de vários meses com o que puderam arrecadar para finalmente conseguir ser atendido pelas Nações Unidas. O que mais assusta a ONU é que não está claro desde quando a corrupção está instaurada nos campos de refugiados. "Temos indicações que essa rede começou a operar em 1998, mas não podemos negar que essa prática pode ser mais antiga", reconhece Nair. Segundo ele, cerca de 72 pessoas estariam envolvidas nessa rede de "corrupção humanitária". O grupo seria comandado por três altos funcionários da ONU e ainda contaria com a ajuda de organizações não-governamentais, que supostamente estariam no Quênia para ajudar a população local, mas acabavam servindo também para coletar o dinheiro dos refugiados. "Nos últimos anos, a Organização das Nações Unidas (ONU) vem recebendo duras críticas por não conseguir manter a paz no mundo. Mas poucas vezes na história da ONU a reputação da organização sofreu um golpe grande como o desta semana", afirma um diplomata africano. A vice-diretora do Acnur, Mary Wyrsch, reconhece a existência da rede de corrupção e garante que a entidade está tomando todas as medidas para punir os responsáveis e mudar sua forma de operar. "Substituímos todos nossos funcionários do Quênia e não há desculpas para o que ocorreu", afirma a vice-diretora. A ONU também suspendeu a imunidade diplomática de nove funcionários envolvidos, e agora o governo do Quênia irá abrir um processo penal contra os membros da rede. Mas Nair, chefe das investigações, alerta que o que ocorreu na África pode não ser um caso isolado. "A corrupção pode ocorrer em outros escritórios da ONU em outras regiões. Temos que ficar atentos", completou. Somente no Quênia, existem mais de 250 mil refugiados, a maioria vivendo em péssimas condições depois que foram obrigados a fugir da Somália e de Ruanda na última década.

Agencia Estado,

25 Janeiro 2002 | 14h31

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