REUTERS/Jesus Contreras
REUTERS/Jesus Contreras

Funcionários da petroleira venezuelana PDVSA vendem até uniformes para comprar comida

De acordo com entrevistas feitas pela agência Reuters com dezenas de funcionários, parentes e líderes sindicais da estatal, inflação de três dígitos que assola o país devora a renda e faz com que cada vez mais os venezuelanos tenham dificuldades para pagar suas dívidas

O Estado de S. Paulo

05 de outubro de 2016 | 16h00

MARACAIBO, VENEZUELA - Durante décadas, os empregos na gigante estatal petroleira venezuelana PDVSA foram cobiçados pelos salários acima da média, os benefícios generosos e o crédito barato, que tornava casas próprias e férias no exterior algo ao alcance de muitos trabalhadores.

Hoje, diante da economia em crise da Venezuela, até os funcionários da PDVSA estão tendo dificuldades para pagar suas dívidas, de alimentos a passagens de ônibus e despesas escolares, já que a inflação de três dígitos devora a renda.

Eles estão penhorando bens, estourando os cartões de crédito, fazendo bicos e até vendendo uniformes da petroleira para comprar comida, de acordo com entrevistas feitas pela Reuters com duas dezenas de funcionários, parentes e líderes sindicais.

"Todo dia um trabalhador da PDVSA vem vender seu macacão", disse Elmer, ambulante no maior mercado da cidade de Maracaibo, enquanto clientes olham o arroz caro e a farinha importada da vizinha Colômbia. "Eles também vendem botas, calças, luvas e máscaras."

O maior parte dos cerca de 150 mil funcionários da estatal ganha o equivalente a algo entre 35 e 150 dólares por mês, mais 90 dólares em vale-refeição, segundo cálculo com base na taxa de conversão do mercado negro. Ainda é mais do que muitos venezuelanos, mas não o suficiente, dizem os trabalhadores.

"Às vezes deixamos as crianças dormirem até o meio-dia para economizar no café da manhã", disse um funcionário de manutenção que trabalha nas margens do Lago de Maracaibo, área tradicional de produção de petróleo da Venezuela próxima da fronteira colombiana. Ele disse que perdeu cinco quilos este ano por estar se alimentando menos.

O fardo da crise econômica está ampliando as ausências dos trabalhadores e a fuga de talentos, além de afetar a eficiência da indústria, responsável por mais de 90% da renda de exportação do país. "A maioria de nós não é tão produtivo quanto costumava ser, porque estamos mais dedicados a como sobreviver economicamente", disse um funcionário de manutenção, falando sob condição de anonimato por medo de represálias.

Isso se soma a uma ampla gama de problemas causados pela falta de dinheiro - do subinvestimento e da escassez de peças até a manutenção inadequada, o roubo e as importações insuficientes para a mistura.

A PDVSA , que não respondeu a um pedido de comentário para esta reportagem, disse que seus funcionário estão satisfeitos. "Embora a PDVSA não escape da situação do preço (do petróleo), sua mão de obra permanece intacta e pronta para gerar iniciativas para fortalecer grandes projetos", afirmou a petroleira recentemente. / REUTERS

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