AP Photo/Alex Brandon
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Funcionários de fábrica que produz sapatos para marca Ivanka Trump relatam abusos

Relatos de salários baixos e metas altas de produção surgem apenas uma semana depois que um ativista que investigava a condição de trabalho nesses locais foi preso

O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2017 | 15h51

PEQUIM - Funcionários que trabalham em uma fábrica que produz sapatos para a marca Ivanka Trump relataram ao jornal britânico The Guardian que recebem tão pouco que não conseguem morar com seus filhos. Além disso, eles convivem com intimidação anti-sindical e as mulheres podem receber um bônus se não pararem para descansar quando estiverem menstruadas.

Algumas pessoas afirmam que ganham um dos salários mais baixos em toda a Ásia, e que há metas de produção muito altas e o tempo extra trabalhado raramente é compensado.

Os relatos surgem apenas uma semana depois que um ativista que investigava as condições de trabalho em um desses locais foi detido. Outros dois homens que auxiliavam na investigação estão desaparecidos desde domingo, indicou a ONG China Labor Watch (CLW).

"Em 17 anos realizamos muitas investigações e nunca tivemos nenhum problema", disse Li Qiang, diretor da ONG. "Mas esta foi a primeira vez que investigávamos (os fornecedores de) Ivanka Trump, então, talvez, esteja relacionado com a marca", completou.

Ivanka é a filha mais velha do presidente dos EUA, Donald Trump, e assessora na Casa Branca. Seu marido, Jared Kushner, também é assessor do presidente. A filha do magnata vende com seu nome vários produtos, incluindo peças de roupa, bolsas, sapatos e acessórios, alguns deles fabricados na China.

"Pedimos ao presidente Trump, a Ivanka Trump e a sua empresa que defendam e pressionem pela libertação de nossos ativistas", disse Li.

O detido, Hua Haifeng, que ao lado de outras duas pessoas investigava de modo incógnito duas fábricas, foi detido sob acusação de utilizar ilegalmente um aparelho de interceptação de comunicações.

Durante a campanha eleitoral, Trump fez muitas críticas à política comercial da China, mas as relações entre os dois países melhoraram desde abril, quando o republicano se reuniu com o presidente chinês, Xi Jinping, em sua residência de Mar-a-Lago, na Flórida.

Preocupações

De acordo com Li Qiang, a acusação da polícia de Jiangxi "não tem base factual". Ele explicou que as duas fábricas — uma na cidade de Dongguan, na Província de Guangdong, e outra em Ganzhou, em Jiangxi — pertencem à fabricante de calçados Huajian Group.

Os ativistas descobriram que os trabalhadores das fábricas são obrigados a cumprir horas extras e recebem menos que o salário mínimo legal. Além disso, de acordo com Li, as fábricas divulgam relatórios falsos, com salários maiores que os reais. A ONG afirmou que vários "estudantes" trabalham nas unidades.

Além de sapatos para a marca Ivanka Trump, o Huajian Group produz para grupos ocidentais como Coach, Nine West, Karl Lagerfeld e Kendall + Kylie.

De acordo com dados obtidos pela agência de notícias France-Presse a partir de registros da alfândega, mais de 50 toneladas de sapatos, bolsas e roupas da marca Ivanka Trump saem regularmente da China em direção ao território americano.

A detenção do ativista da China Labor Watch é parte da política de linha dura com a sociedade civil do presidente Xi Jinping desde que chegou ao poder, em 2012. De acordo com Patrick Poon, investigador da Anistia Internacional na China, este caso é "muito preocupante" porque até agora o ativismo sobre as condições de trabalho nos grandes grupos "era considerado menos sensível que outro tipo de ativismo político e de direitos humanos".

"Se até este tipo de ativismo está sob ameaça agora, isto pode significar que o governo de Xi Jinping não tolera mais nenhuma demanda para melhorar os direitos, incluindo direitos sociais e econômicos", disse Poon. / AFP

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