Funcionários públicos pararam hoje; amanhã, greve geral

"Meu destino final é a Chacarita (o maior cemitério da cidade). O negócio é não ficar doente, já que não vou ter dinheiro para meus remédios", disse Prudencio Fernández Cruz, aposentado de 81 anos, apoiado em uma bengala de madeira de pinho, tão frágil quanto ele. Fernández Cruz é um dos milhares de aposentados argentinos atingidos pelo pacote de ajuste fiscal do governo do presidente Fernando de la Rúa, que implicará em uma redução de 13% nos salários dos funcionários públicos e nas aposentadorias acima de US$ 300, que apesar do valor, na Argentina não alcança para nada.Mais de 90% dos funcionários públicos em todo o país paralisaram suas atividades em protesto contra o ajuste fiscal, em uma greve que englobou todo o funcionalismo público, os hospitais e escolas públicas.Amanhã será a vez das três centrais sindicais do país, que realizarão uma greve geral.Apesar dos problemas para caminhar, Fernández Cruz era mais um dos milhares de manifestantes que hoje encheram a avenida de Mayo, entre o Congresso Nacional e a Casa Rosada, a sede do governo, onde foi feita a principal marcha contra o ajuste.A poucos passos dele, com 53 anos de idade a menos, estava Carla, uma funcionária da Biblioteca Nacional. Trabalhando no setor de encadernação, ganha US$ 900, mas passará a receber menos de US$ 800."Meu caso não é dos piores, e terei que cortar coisas como o cigarro.Mas meu temor é que o ajuste não fique somente na redução salarial e acabe se tornando uma demissão em massa".Segurando um cartaz do Partido Comunista, o aposentado Saúl Cascaian, de 84 anos, disse que recebe uma aposentadoria de US$ 150.Cascaian não será atingido pelo ajuste de De la Rúa, destinado somente às aposentadorias acima de US$ 300. "Meu filho, eu já fui ajustado há anos. Vê se com essa miséria posso viver?". Cascaian, que foi professor primário no passado, hoje trabalha - para sobreviver - em um escritório de advocacia, "fazendo um pouco de tudo". Filiado do PC desde os 19 anos de idade, considera que o governo não vai voltar atrás: "são uns vendidos ao capital internacional. É culpa da globalização".Atravessando a avenida 9 de Julio, a mais larga do mundo, acompanhando a rabeira da manifestação, estava a professora Silvia, de 34 anos. Quase sem fôlego de tanto gritar contra o governo, explicou que com os cortes salariais terá que cortar parte da comida que compra. "O resto, como o aluguel, água e gás, vou ter que continuar pagando", lamentou. Seus gastos fixos são quase 70% de seu salário de US$ 900.Cecília, de 19 anos, é estudante de filosofia, mas estava ali para protestar no lugar da mãe, que é médica do serviço público. "Com os cortes no salário de minha mãe acabou-se cinema, telefone e todo tipo de lazer".Na histórica Plaza de Mayo, na frente da Casa Rosada, o secretário-geral da Associação de Trabalhadores do Estado (ATE), Juan González, afirmou que a greve (de hoje) era "o início de um plano de luta contra a política de fazer um ajuste com as pessoas mais pobres".A ministra do Trabalho, Patricia Bullrich, afirmou que se o governo não tivesse adotado "estas medidas duríssimas", o governo teria "caído no default".Longe da manifestação, mas sempre polêmico, o ex-astro do futebol Diego Armando Maradona declarou que era preciso que o presidente De la Rúa "acordasse", pois "ele está dormindo uma siesta muito longa".Enquanto na Plaza de Mayo protestavam os funcionários públicos e aposentados, a vinte quarteirões dali, dentro do edifício do Congresso Nacional, um grupo de deputados da União Cívica Radical (UCR) e do Partido Justicialista (mais conhecido como "Peronista"), da oposição anunciaram que pretendem modificar o pacote de ajuste do governo "para que ele adquira maior equidade".Jesús Rodríguez, vice-presidente do bloco da UCR, partido de De la Rúa, demonstrou que existe rebeldia dentro do próprio governo ao afirmar que "reconhece-se a crise", mas que "sob circunstância alguma podem-se reduzir as aposentadorias". Segundo Rodríguez, não se pode pedir a "alguém que trabalhou toda a vida que se conforme a abandonar 13% de sua aposentadoria".O deputado peronista Marcelo López Arias disse que nos próximos dias este bloco suprapartidário apresentará alternativas para "El Ajustazo". Segundo Arias, quando foram concedidos os "poderes especiais" ao pode executivo no início de abril, estabeleceu-se uma proibição de reduzir os salários e aposentadorias.O assessor do Ministério da Economia, Horacio Liendo, afirmou que revogar o ajuste "seria como revogar a lei da gravidade". Liendo alertou que se o ajuste não for aplicado "será impedida a reativação econômica no segundo semestre".No entanto, o principal golpe ao ajuste ocorreu na província de Buenos Aires, onde a Corte Suprema de Justiça provincial determinou que o governador Carlos Ruckauf não poderá reduzir os salários dos funcionários públicos provinciais, nem pagar parte dos salários com bônus.Ruckauf, que governa a província mais rica, mas também a mais endividada do país, pretendia reduzir os salários do funcionalismo provincial acima de US$ 1.000, e pagar parte dos salários acima de US$ 700, bem como os provedores. Os analistas consideram que a decisão da Justiça de Buenos Aires poderá causar problemas mais significativos para o ajuste do que os movimentos no Congresso. Um terço do déficit de todas as províncias pertence à de Buenos Aires.Quebrando uma tradição, o presidente Fernando de la Rúa não compareceu às cerimônias do sétimo aniversário do atentado à associação beneficente judaica AMIA, no qual morreram 85 pessoas. Ele não teria ido para não ser vaiado pelos presentes, irritados com o presidente tanto pela falta de resultados na Justiça sobre os culpados pelo atentando, quanto pelo ajuste fiscal.Outro integrante do governo que está com a popularidade em baixa é o ministro da Economia, Domingo Cavallo. Segundo uma pesquisa da consultora Ricardo Rouvier e Associados, nos últimos dois meses, a imagem positiva do ministro caiu de 40,7% para 25 1%. Além disso, a imagem negativa subiu de 21,6% para 47,6%. Segundo Rouvier, o golpe de misericórdia na imagem de Cavallo foi o ajuste fiscal, especialmente a redução das aposentadorias.

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