REUTERS/Marco Bello
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Funcionários públicos relatam ameaças por não terem votado na Venezuela

Associações de trabalhadores ligadas à oposição venezuelana denunciaram pressão do governo a servidores que não participaram da votação que levou Nicolás Maduro à reeleição

Rodrigo Cavalheiro, ENVIADO ESPECIAL A CARACAS, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2018 | 05h00

Associações de trabalhadores ligadas à oposição da Venezuela denunciaram nesta terça-feira, 22, ameaças de punição do governo a funcionários públicos que não participaram da votação que levou Nicolás Maduro  à reeleição, um processo não reconhecido pela maior parte da comunidade internacional. Líderes opositores impedidos pela Justiça de concorrer chamaram a população a não participar. Maduro obteve 68% dos votos e a abstenção ficou em 52%.

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Segundo Marlene Sifontes, da Frente Autônoma de Defesa do Emprego, Salário e Sindicato, o governo pretende cruzar os dados sobre participação para promover demissões, transferências, aposentadorias forçadas e a suspensão de gratificações e promoções. O governo pretendia alcançar uma participação maior, razão pela qual governadores chavistas convocaram, em áudios vazados, os militares a usarem “toda a máquina” do Estado para levar eleitores às urnas.

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São frequentes na Venezuela relatos de pressão para que o funcionalismo, estimado em 2,3 milhões de pessoas, vote a favor do governo. Isso ocorreu na semana passada, antes da votação. Uma funcionária pública de 71 anos, que ganha o equivalente a US$ 3 por mês, criticava o governo em um restaurante português do centro de Caracas. Questionada se votaria contra Maduro, disse que não o faria por temor a retaliações. “Estou perto de me aposentar e tenho medo de não conseguir minha pensão se votar contra Maduro.” 

Outro funcionário público, este de uma empresa da área de pesca, disse na terça-feira, 22, que as recomendações para que os empregados votassem eram claras. “Ofereceram até transporte para nos levar, mas eu não fui votar”, afirmou o homem, que não passa à iniciativa privada por falta de opção. Ele disse que não recebeu ameaças depois da votação.

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“Eu deixei o trabalho em uma estatal porque o controle político era insustentável. Sabiam que eu era opositor e a pressão para votar no governo era escancarada. Os chefes perguntavam diretamente se a apoiaríamos o governo”, disse Roberto Lodeiro, de 39 anos, um ex-contador estatal do setor petroquímico que preferiu virar motorista. 

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De acordo com a sindicalista Marlene Sifontes, pelo menos 880 mil trabalhadores deixaram o setor público desde 2017. Procurado pela reportagem, o governo venezuelano indicou que daria uma resposta às acusações, mas não o fez.

O séquito de Maduro compareceu em massa na terça-feira, 22, à sede do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), órgão que regula a eleição, onde o chavista recebeu das mãos da diretora Tibisay Lucena um certificado de que venceu a disputa eleitoral de domingo. 

Com o documento em mãos, Maduro fez um discurso inflamado em que anunciou a expulsão do diplomata americano mais graduado na Venezuela em retaliação à nova leva de sanções contra o chavismo. Acusando o encarregado de negócios Todd Robinson de estar envolvido em uma “conspiração militar”, Maduro deu 48 horas para que ele e Brian Naranjo, outro diplomata americano, saiam da Venezuela. “Nem com conspirações nem com sanções vocês segurarão a Venezuela”, disse. 

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O Departamento de Estado dos EUA rejeitou nesta terça-feira, 22, as alegações contra os diplomatas expulsos. Desde 2010, quando Patrick Dudd deixou Caracas, a embaixada americana na Venezuela tem sido chefiada por encarregados de negócios, que ficam incumbidos de conduzir os trabalhos enquanto não é designado um novo embaixador. 

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A relação com os EUA ficou ainda mais tensa na segunda-feira, quando o presidente Donald Trump assinou um decreto que limita a capacidade de Caracas para vender ativos do Estado, aumentando a pressão sobre o governo chavista já carente de dinheiro.

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