Fundador da Blackwater cria força secreta

Batalhão mercenário é encomenda do príncipe de Abu Dabi; ele quer reunir 800 estrangeiros nos Emirados Árabes

Mark Mazzett e Emily B. Hager, The New York Times / Abu Dabi, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2011 | 00h00

Em novembro, já era noite alta quando um avião com dezenas de colombianos aterrissou na capital dos Emirados Árabes, Abu Dabi. Conduzidos rapidamente pela alfândega por um agente da inteligência do país, todos entraram num ônibus sem placa que viajou 30 quilômetros, até um complexo militar no deserto.

Os colombianos entraram nos Emirados Árabes como trabalhadores da construção. Na verdade, eram soldados de um exército mercenário secreto, dirigido por americanos e criado por Erik Prince, o bilionário que fundou a Blackwater Worldwide - com US$ 529 milhões fornecidos pelo país árabe.

Prince, que se reinstalou nos Emirados Árabes no ano passado, depois que a sua empresa de segurança começou a enfrentar problemas legais crescentes nos EUA, foi contratado pelo príncipe de Abu Dabi para reunir um batalhão de 800 estrangeiros para o país, segundo ex-empregados, autoridades americanas e documentos corporativos obtidos pelo New York Times.

O objetivo do batalhão é realizar operações especiais dentro e fora do país, defender oleodutos e arranha-céus contra ataques terroristas e reprimir revoltas internas. Essas tropas poderão ser mobilizadas se os Emirados Árabes enfrentarem revoltas nos seus campos de trabalho abarrotados ou protestos pró-democracia como os que tomaram conta do mundo árabe este ano.

Considerando seu próprio Exército inadequado, os governantes dos Emirados Árabes esperam também que essas tropas consigam neutralizar a agressão regional do Irã, o maior inimigo do país. O campo de treinamento, localizado numa base chamada Zayed Military City (Cidade Militar de Zayed), é oculto por muros de concreto protegidos com arame farpado.

Fotografias mostram prédios amarelos idênticos, usados como alojamentos e refeitórios, e um estacionamento que abriga caminhões-tanque e jipes. Os colombianos, juntamente com sul-africanos e outros estrangeiros, são treinados por militares americanos aposentados e veteranos de unidades especiais da Alemanha, da Grã-Bretanha e da Legião Estrangeira.

Ao terceirizar áreas críticas da sua defesa para mercenários, os Emirados Árabes deram início a uma nova era no boom de contratações de guerra que começou após o 11 de Setembro. E, dependendo de uma força criada na maior parte pelos americanos, eles introduziram um elemento volátil numa região já bastante explosiva, onde os americanos são vistos com desconfiança.

Os Emirados Árabes - uma autocracia com o brilho de um Estado moderno e progressista - são aliados muito próximos dos EUA e as autoridades americanas já indicaram que a criação desse batalhão tem algum apoio em Washington. Mas não se sabe ao certo se o projeto tem o aprovação oficial.

Para especialistas legais e autoridades, alguns dos envolvidos no caso podem estar violando leis federais que proíbem americanos de treinar tropas estrangeiras, a não ser que tenham uma licença do Departamento de Estado. Mark C. Toner, porta-voz do organismo, não confirmou se a empresa de Erik Prince obteve essa licença, mas disse que já está sendo investigado se esse treinamento infringe leis americanas. Mas Toner acrescentou que a Blackwater (que adotou um novo nome, Xe Services) pagou US$ 42 milhões de multas no ano passado por treinar soldados estrangeiros na Jordânia e outros países.

O embaixador dos Emirados Árabes em Washington, Yousef al-Otaiba, recusou-se a comentar o assunto, da mesma maneira que o porta-voz do responsável pela Blackwater.

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