ROBERTO ACOSTA / NOTICIAS ARGENTINAS / AFP
ROBERTO ACOSTA / NOTICIAS ARGENTINAS / AFP

Fundadora das Avós da Praça de Maio morre aos 95 anos sem encontrar neta 

Por muitos anos, Chicha Mariani esteve convencida de que sua neta era a filha adotiva de Ernestina de Noble, a falecida dona do poderoso grupo multimídia Clarín

O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2018 | 15h40

BUENOS AIRES - María Isabel "Chicha" Chorobik de Mariani, uma das fundadoras do grupo Avós da Praça de Maio, morreu na segunda-feira, aos 95 anos, sem reencontrar a neta Clara Anahí, um caso emblemático dos bebês roubados na ditadura argentina (1976-1983).

"Nos despedimos com enorme tristeza de quem foi companheira das Avós e atual presidente da fundação 'Clara Anahí'. Uma mulher fundamental no início da busca dos meninos e meninas apropriados pelo terrorismo de Estado e um símbolo da luta pelos direitos humanos", afirma um comunicado divulgado pela organização humanitária.

Chicha Mariani foi uma das 12 fundadoras, em 1977, da entidade e sua presidente até 1989, quando se afastou para criar a fundação Clara Anahí, com o objetivo de buscar sua neta. Foi sucedida nas Avós da Praça de Maio por Estela de Carlotto, que coordena o grupo até hoje.

Mariani sofreu um AVC em 7 de agosto e não conseguiu se recuperar. O funeral acontecerá em La Plata, 60 km ao sul de Buenos Aires, onde morava e onde fica a sede da fundação.

O caso Clara Anahí é emblemático e ficou conhecido no mundo todo depois da divulgação de cartas abertas que Chicha Mariani escreveu à sua neta.

Em 24 de novembro de 1976, Clara Anahí, uma bebê de 3 meses, foi sequestrada por um policial depois que sua mãe, Diana Teruggi, foi assassinada junto com outros três militantes do grupo guerrilheiro Montoneros (esquerda peronista) durante uma busca policial em sua casa de La Plata. 

Daniel Mariani, o filho de Chicha, que não estava em casa nesse dia, foi morto a tiros oito meses depois.

Uma foto de Clara Anahí bebê foi replicada durante décadas em cada aniversário da menina que hoje tem 41 anos.  

Nesta terça-feira, dezenas de mensagens nas redes sociais expressam "tristeza e dor" pelo falecimento de Chicha Mariani.

Em 24 de dezembro de 2015, a notícia do suposto aparecimento de Clara Anahí, quando uma mulher se aproximou da fundação dizendo que era sua neta, com um comprovante  positivo de um laboratório privado, comoveu a opinião pública argentina. Esse exame, contudo, foi rapidamente descartado por duas análises genéticas oficiais, em um golpe brutal para a avó, que já passava dos 90 anos.

"Aos 91 anos minha vontade é te abraçar e me reconhecer no seu olhar, gostaria que você viesse até mim para que essa longa busca se concretizasse. É esse desejo que me mantém de pé para que finalmente a gente se encontre", havia escrito Mariani meses antes.

Durante muitos anos, Mariani esteve convencida de que sua neta era Marcela Noble, a filha adotiva de Ernestina de Noble, a falecida dona do poderoso grupo multimídia Clarín. Assim ela declarou em 2010 durante um julgamento contra o ex-ditador Jorge Videla. No entanto, os resultados genéticos deram negativo.

O grupo das Avós estima em 500 o número de crianças roubadas durante a ditadura. Desse total, 128 foram localizadas, a maioria com vida, e recuperaram sua identidade. O último caso foi anunciado em dezembro. / AFP

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