Fundamentalistas reúnem multidão em marcha por Estado islâmico no Egito

Trinta organizações não religiosas que ajudaram a derrubar Mubarak denunciam que grupos muçulmanos chamados pela Irmandade Muçulmana, incluindo ultraconservadores salafistas, 'sequestraram' manifestação; ataques matam 2 e ferem 12 no Sinai

AFP e Reuters, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2011 | 00h00

Em meio à cisão entre os grupos que derrubaram a ditadura de Hosni Mubarak, em fevereiro, dezenas de milhares de integrantes de facções islâmicas tomaram ontem as ruas do Cairo em uma demonstração de força contra medidas para conter o poder dos religiosos no Egito. Os protestos espalharam-se pelo país e, em El-Arish, norte da Península do Sinai, duas pessoas morreram após homens com bandeiras islâmicas abrirem fogo.

A imprensa egípcia noticiou ainda um atentado contra um carro que levava cinco pessoas em uma região cristã ao sul da capital. Pelo menos dois passageiros teriam morrido quando o veículo foi alvejado por atiradores não identificados.

Uma multidão de militantes incluindo milhares de salafistas (grupo ultraconservador muçulmano com uma interpretação do Islã nascida na Arábia Saudita) ocupou o centro do Cairo e se aproximou da Praça Tahrir, onde permanecem manifestantes liberais anti-Mubarak. Em vez dos tradicionais slogans "Pacífico! Pacífico" e "O povo quer derrubar o regime!", entoados à exaustão em fevereiro, os manifestantes cantavam "Islâmico! Islâmico!" e "O povo quer a sharia (lei islâmica)".

A "islamização" das manifestações fez com que mais de 30 grupos que atuaram para depor Mubarak anunciassem seu afastamento dos protestos. Segundo eles, os religiosos "sequestraram" as demonstrações de rua.As facções laicas acusaram os organizadores dos protestos de atropelar o pacto para evitar em manifestações temas que dividem os grupos anti-Mubarak.

As passeatas de ontem ganharam um impulso adicional depois que a Irmandade Muçulmana, mais organizado grupo da oposição egípcia, e outras organizações islâmicas convocaram seus seguidores a sair às ruas.

Até agora, esses grupos vinham mantendo silêncio diante da pressão de facções religiosas contra o conselho militar que comanda o Egito. Sem a ajuda da Irmandade, os protestos públicos contra a junta permaneciam restritos a poucos.

"Slogans salafistas não deveriam fazer as demais forças políticas recuarem. Todos são livres para dizer o que querem", declarou Abdelrahman al-Barr, um dos líderes da Irmandade. No comunicado dos 30 grupos laicos, religiosos são acusados de "facilitar as tentativas do conselho militar de dividir e distorcer a imagem dos revolucionários".

Os partidos islâmicos tentam reverter a imposição de limites explícitos ao poder dos religiosos e do Islã na nova Constituição do Egito. Essas restrições são uma das principais exigências tanto dos grupos liberais que ajudaram a depor Mubarak quanto do comando do Exército, que atualmente governa o país. Ambos temem que um novo Congresso, a ser eleito este ano, acabe dominado pelos radicais e aproxime de modo irreversível o Egito de uma teocracia.

Os salafistas afirmam que qualquer restrição aos poderes do novo Congresso é ilegítima e exigem a adoção incondicional da sharia e a luta contra qualquer manifestação "não islâmica". Bem mais numerosa, a Irmandade Muçulmana evita abordar o tema, mas vê com desconfiança as cláusulas para garantir um Estado laico.

Violência. O dia de fúria dos grupos islâmicos no Cairo foi acompanhado de ataques em outras regiões do Egito. Em El-Arish, dezenas de homens armados abriram fogo matando 2 e ferindo pelo menos 12, segundo o Ministério da Saúde do Cairo. Segundo testemunhas, os atiradores levavam bandeiras islâmicas.

O outro atentado, que terminou com dois feridos, foi registrado em um bairro cristão ao sul do Cairo.

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