Funerais em capital de país campeão em homicídios são grátis

Prefeito de Tegucigalpa, em Honduras, país com maior taxa de assassinatos do mundo, criou 'Funerária do Povo'.

BBC Brasil, BBC

03 Maio 2012 | 08h54

A capital do país com a maior taxa de homicídios per capita do mundo oferece funerais de graça para seus cidadãos mais pobres.

A Funerária do Povo foi promessa de campanha de Ricardo Alvarez, prefeito de Tegucigalpa, em Honduras.

Ele diz que resolveu introduzir o serviço porque a grande maioria das vítimas de homicídios eram pobres, com familiares sem recursos para bancar um funeral.

"Quando estava na campanha, há quase sete anos atrás, descobri que as pessoas estavam sendo enterradas em sacos plásticos de lixo", diz ele.

"Eu disse 'isto não pode acontecer no meu país, na minha cidade'. Então venho dirigindo o serviço funeral nos últimos seis anos, e este é o meu sétimo."

Morte violenta

Tragicamente, este é um serviço que é mais necessário do que nunca em Honduras.

A Comissão Nacional de Direitos Humanos estimou que uma morte violenta ocorre a cada 74 minutos nesta pequena nação centro-americana de oito milhões de habitantes.

Honduras registrou no ano passado a maior taxa de assassinatos no mundo, com 86 mortes por 100.000 habitantes. Em 2010, eram 82.

No Reino Unido a taxa é de uma pessoa por 100.000, enquanto no México é de 18 por 100.000 habitantes. A maioria das pessoas que morrem violentamente em Honduras são vítimas de armas de fogo.

As razões para a explosão de assassinatos, quase o dobro das taxas de 2005, são complexas. Corrupção, gangues e armas estão presentes há décadas.

Mas em 2009, o golpe contra o governo do presidente Manuel Zelaya levou uma onda de assassinatos políticos.

E, agora, os hondurenhos têm de lidar com a presença de cartéis de drogas mexicanos que se mudaram para o Sul e se estabeleceram no país.

Ninguém está a salvo. Ativistas, jornalistas e advogados ainda são alvo dos assassinos.

24 horas por dia

O serviço está aberto 24 horas por dia. Chamadas ocorrem dia e noite a partir do hospital da cidade. Muitas pessoas ouvem falar sobre a Funerária do Povo em conversas com amigos ou parentes.

A equipe de 18 pessoas trabalha em turnos diferentes, em duas casas funerárias. Ambas são equipadas com tudo o que as famílias precisam para um velório, que dura geralmente de 12 a 24 horas.

Entre as famílias que precisavam de ajuda para enterrar um ente querido está a de Orlando Ramon Valera, 26, baleado e morto em plena rua. A família ligou para a Funerária dizendo que não tinha dinheiro para pagar um enterro decente.

Poucas horas depois, uma van preta com as iniciais da Funerária em cor laranja estampadas nas laterais estava a caminho do necrotério, levando um caixão vazio, um suporte, cortinas, velas e ainda café e pão para os convidados do velório - realizado em uma pequena igreja no bairro da família, Los Laureles.

A Funerária do Povo não ajuda apenas a familiares de vítimas de violência, mas gente sem recursos em geral, como um pai que perdeu um filho recém-nascido.

"Minha esposa deu à luz gêmeos por cesária", conta Miguel Antonio Bueso, acrescentando que "nós pensamos que estava tudo bem, mas um dos bebês começou a sangrar. O bebê morreu."

"Eu não tinha dinheiro para um caixão. Uma das enfermeiras do hospital me informou sobre este serviço e, em seguida, fez toda a papelada para mim."

Para Erica Fuentes, mãe de dois filhos de Ramon, a Funerária do Povo representou um alívio. Um funeral privado teria custado cerca de US $ 1.000.

Ela estava com Ramon quando ele foi morto e luta para se livrar da lembrança.

"Deixamos as meninas na escola e estávamos voltando quando aconteceu", diz ela, acrescentando que "acho que Ramon foi baleado por um erro."

"Naquela época estávamos juntos, de braço dado, talvez por isso Deus me ajudou e assim que me salvei." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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