CHANDAN KHANNA / AFP
CHANDAN KHANNA / AFP

‘Fura-fila’ por vacina contra covid-19 ocorre ao redor do mundo e envolve até disfarce

Fraudes para conseguir imunização em meio à pandemia vão dos Estados Unidos na Espanha, com acesso a autoridades e viagens a comunidades isoladas

Lin Taylor e Sonia Elks, Reuters

22 de fevereiro de 2021 | 19h31

Quando duas senhoras, vestindo toucas brancas e luvas, chegaram em um centro de vacinação na Flórida, nos Estados Unidos, os profissionais de saúde notaram que algo estava errado. As mulheres tinham idades entre 30 e 40 anos, e se fantasiaram de idosas na tentativa de receber vacinas reservadas a grupos prioritários. Elas estão entre um número crescente de pessoas que tentam driblar autoridades para ter acesso antecipado aos estoques escassos da vacina contra o novo coronavírus

Escândalos que envolvem “fura-filas” na vacinação já forçaram ministros na Argentina e no Peru a pedir demissão na última semana. Multas e outras punições, no entanto, não impediram que algumas das pessoas mais privilegiadas do mundo conseguissem acesso a doses – muitas vezes por meio de métodos questionáveis. 

Onde e como casos de ‘fura-fila’ estão ocorrendo?

Casos de acesso privilegiado a vacinas contra a covid-19 até agora são relativamente raros, mas o número de casos está crescendo. 

Na Flórida, profissionais de saúde disseram que as duas mulheres, flagradas em um centro de distribuição de vacinas em Orlando, deram datas de nascimento falsas e aparentemente já haviam conseguido tomar a primeira dose da vacina. Elas receberam advertências por invasão, mas nenhuma outra medida foi tomada. 

O momento em que as autoridades perceberam o disfarce foi gravado. Confira:

Autoridades do estado já haviam endurecido as regras para comprovar residência na Flórida, em um esforço para barrar o fluxo dos “turistas de vacina”, de lugares como Nova York até a Índia. 

Outros casos de “fura-fila” foram punidos de forma mais contundente. No Peru, duas ministras renunciaram a seus cargos, e o ex-presidente Martín Vizcarra se tornou alvo de uma investigação criminal após denúncias de que centenas de pessoas, inclusive mais de cem funcionários públicos, receberam doses de vacina fora dos testes clínicos, antes do programa nacional de imunização ter início. 

O ministro da Saúde da Argentina, Ginés González García, também renunciou na última sexta-feira após reportagens mostrarem que ao menos 10 pessoas furaram a fila de vacinação através de contatos no governo. Entre os casos está o de um jornalista que alega ter recebido uma dose após pedir ajuda ao ministro. 

Na Europa, um general do exército espanhol e prefeitos de municípios na Áustria foram acusados de receber doses de forma irregular. 

Além disso, um clube de elite em Londres causou indignação no mês passado ao oferecer vacinas a associados com mais de 65 anos que comprassem um pacote turístico para os Emirados Árabes. No Reino Unido, a vacinação só está disponível através do sistema público de saúde. 

O ministro do Interior da Grã-Bretanha disse que os casos são “moralmente repreensíveis” e não descarta aplicar multas para quem fraudar a fila de imunização. 

Vários países – inclusive Israel, Bélgica, Hungria e Dinamarca – anunciaram que pretendem vacinar seus atletas para as Olimpíadas de Tóquio, que têm data de início programada para o dia 23 de julho, após ser adiada em um ano por causa da pandemia. 

O Comitê Olímpico Internacional declarou que não é a favor da prioridade para atletas na vacinação. 

Um casal milionário que viajou até uma comunidade remota no Canadá, com a intenção de receber doses da vacina destinadas a um grupo indígena vulnerável, recebeu uma multa de 1,8 mil dólares por desrespeitar regras de saúde pública. Ao redor do mundo, no entanto, há poucas políticas de punição a quem fura a fila. 

Por que isso importa?

Pessoas com acesso privilegiado a governos estão adquirindo vacinas, apesar de não atenderem a critérios dos programas de imunização, enquanto há trabalhadores da area de saúde que ainda não receberam suas doses. Especialistas dizem que, caso as autoridades não consigam priorizar os grupos mais vulneráveis na vacinação, a desigualdade na mortalidade entre grupos étnicos que caracterizou a pandemia deve aumentar. 

Cerca de 200 milhões de doses foram aplicadas em todo o mundo, a maior parte em profissionais da linha de frente nos hospitais e idosos. Ainda há grandes populações em locais onde a imunização não começou, especialmente em países pobres, e onde não há fornecimento de vacinas assegurado até o momento. 

Líderes de países na África chegaram a acusar países ricos de estocar vacinas e pedem uma distribuição mais justa de doses. 

Ao contrário da maior parte do mundo, a Indonésia é um dos poucos países que está vacinando os trabalhadores primeiro, em vezes da população mais velha, com a intenção de reativar a economia e atingir a chamada imunidade de rebanho mais rapidamente. Essa estratégia pode fazer com que menos pessoas mais novas e saudáveis tentem furar a fila. /REUTERS

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