Fúria popular e violência estatal

Da Tunísia ao Irã, aparato de repressão do Estado não foi capaz de amedrontar oposição

JACK HEALY,

19 de fevereiro de 2011 | 00h37

Milhares de manifestantes líbios enfrentam ameaças de violência e detenção em várias cidades por causa dos protestos - o maior desafio aos 40 anos de governo do coronel Muamar Kadafi -, semelhantes aos levantes que afetam os países vizinhos. Apesar da mão pesada do regime, ocorreram protestos em pelo menos três cidades da Líbia.

Uma penumbra de fumaça, gás lacrimogêneo e tensão caiu sobre as cidades da região, com manifestações e batalhas de rua enveredando por novas e perigosas direções, enquanto os governos locais lutam para conter seu avanço e retomar o controle do espaço público.

Países impuseram toques de recolher e ordenaram aos cidadãos que permanecessem em suas casa. Aqueles que desobedecessem às ordens do regime estariam sujeitos à violência das forças de segurança, guardas particulares e grupos de defensores do governo. Mas em todo o Oriente Médio, onde brutais contratos sociais deixaram um legado de milhões de pessoas sem acesso ao ensino, na pobreza e alienadas, as linhas de batalha que separam povo e governo pareceram recrudescer, numa indicação de que novos confrontos devem ocorrer nos próximos dias.

No Bahrein, mais de cinco pessoas foram mortas e centenas acabaram feridas por causa da dura repressão do governo. O Iêmen continua a ser abalado por manifestações pela renúncia do presidente Ali Abdullah Saleh. Os manifestantes entoam gritos de "Não há Estado!" e trocaram pedradas com os grupos que apoiam o regime.

No Irã, um dos principais nomes da oposição, Mir Hossein Mousavi, não pôde ser encontrado, aumentando o medo de que tivesse sido detido por causa dos comícios contra o governo organizados esta semana.

As marchas - as maiores no Irã desde a contestada eleição de junho de 2009 - foram reprimidas por forças de segurança e por paramilitares. O governo tinha convocado seus defensores a se reunir ontem. A oposição anunciou uma nova marcha para amanhã.

Princípios. Na Argélia, onde grandes manifestações foram convocadas para hoje, a emissora estatal de TV denunciou a "interferência estrangeira". Um destacado líder opositor local, Abdelhamid Mehri, acusou o governo de não "responder à fome de integridade, liberdade, democracia e justiça social".

Até na Tunísia, onde as manifestações conseguiram depôr o presidente Zine el-Abidine Ben Ali no mês passado, pequenos grupos de opositores continuaram a se reunir do lado de fora de vários ministérios de Túnis, exigindo a renúncia do governo provisório do país e a libertação de seus parentes detidos.

No Egito, uma semana após a renúncia do presidente Hosni Mubarak, operários de três cidades do Canal de Suez entraram em greve, aprofundando as dificuldades econômicas. E no Iraque, líderes de manifestações dizem que pretendem ir adiante com os planos de realizar uma marcha em Bagdá hoje.

Kamal Jabar, organizador das manifestações no Iraque, explica o estado de espírito na região: "Se acreditamos que haverá violência? Sim. Se vamos insistir em ir às ruas? É claro que sim." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É CORRESPONDENTE DE GUERRA DO "NEW YORK TIMES"

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