Fusão de pirataria e terrorismo é ameaça

Miséria, disponibilidade de armas e o governo falido da Somália favorecem contato entre grupos ilegais

João Paulo Charleaux, O Estado de S. Paulo

08 de maio de 2009 | 07h37

A ligação entre pirataria e terrorismo no Golfo de Áden - uma das regiões mais pobres e violentas da África, localizada em um dos corredores marítimos mais importantes do planeta - preocupa cada vez mais governos e analistas de segurança internacional e ameaça transformar-se em um novo desafio para as maiores potências do mundo.

 

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O primeiro terreno de ensaio para a interação entre terroristas e piratas é a costa da Somália, um Estado falido, controlado por senhores da guerra, onde 3,5 milhões de pessoas - ou a metade da população do país - passam fome.

A mistura de miséria com a disponibilidade de armas pesadas e a ausência de governo abriu espaço para ação de grupos extremistas que começaram a descobrir na pirataria mais uma via de ação contra seus inimigos.

Bruno Schiemsky, ex-chefe do Grupo das Nações Unidas para Monitoramento da Somália, disse que já existem ligações entre os piratas somalis e o grupo islâmico Al-Shabaab, considerado uma organização terrorista internacional pelo governo americano.

Segundo Schiemsky, o Al-Shabaab usa os piratas para contrabandear armas, oferecendo em troca treinamento guerrilheiro.

Para Roger Middleton, que em outubro produziu um relatório sobre o tema para o centro de estudos britânico Chatham House, a relação entre pirataria e terrorismo ainda é tênue, mas tende a crescer. Ele diz que os interesses comuns ainda são mais financeiros do que ideológicos, mas isso não deve impedir a cooperação.

De acordo com o Escritório Marítimo Internacional, 111 dos 293 ataques piratas registrados em 2008 foram realizados na costa da Somália. O número é duas vezes maior do que o registrado em 2007.

"Os piratas atuam em uma região controlada pelo Al-Shabaab e, provavelmente, pagam um porcentual do lucro a esse grupo", disse ao Estado Bronwyn Bruton, pesquisadora do Council on Foreign Relations, de Washington.

Para ela, "essa epidemia de pirataria na Somália é a prova de que o mundo é um lugar muito pequeno" e revela que mesmo as nações mais ricas e desenvolvidas podem ser ameaçadas por Estados falidos e geograficamente distantes como a Somália.

Um dos moradores da praia de Harardera, o ex-coronel do Exército somali Mohamed Nureh Abdulle, acusou em fevereiro navios estrangeiros de se aproveitarem do vácuo de poder e da anarquia que impera na Somália desde 1991 para despejar lixo tóxico em seu litoral e explorar a pesca predatória, o que teria acabado com o meio de subsistência de milhares de pescadores locais.

De fato, a pirataria somali teve início com pequenas milícias marítimas armadas na região autônoma de Puntlândia, que pretendiam rechaçar a incursão de pesqueiros estrangeiros e de navios que faziam da costa somali destino de toneladas de lixo.

"Nossa pesca desapareceu completamente e não podemos mais pescar", disse um pirata que se identificou apenas como Daybad em entrevista à rede britânica BBC. "Pescaremos qualquer coisa que passe por nossos mares por que precisamos comer."

ECONOMIA

A ONG britânica Oxfam afirma que se a comunidade internacional está mesmo interessada em frear a pirataria no Golfo de Áden é preciso recuperar economicamente a Somália.

"Sem oportunidades econômicas que ofereçam alternativas à criminalidade e sem lei e ordem para limitar essas atividades, o lucro fabuloso do sequestro de navios continuará a alimentar a pirataria",disse Robert Maletta, da Oxfam.

OUSADIA EM ALTO-MAR

Superpetroleiro - Em janeiro, piratas somalis tomaram o petroleiro Sirius Star, de bandeira saudita. O navio, o maior sequestrado até hoje, transportava 2 milhões de barris de petróleo avaliados em US$ 100 milhões, o equivalente a um quarto das exportações diárias do produto pela Arábia Saudita

Tanques de guerra - Em outra ação espetacular, os piratas tomaram o cargueiro Faina, de bandeira ucraniana, que levava 33 tanques de guerra russos modelo T-72 e grande quantidade de armamentos e munição. O

sequestro aconteceu em setembro e o navio ficou em poder dos criminosos por 55 dias

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