Futebol avança e ameaça supremacia de beisebol em Cuba

Popular entre jovens e transmitido pela TV, esporte passa a ocupar espaço de tradicional esporte nacional.

Fernando Ravsberg, BBC

03 Maio 2012 | 07h21

O esporte favorito de Cuba, o beisebol, parece correr o risco de passar para o segundo plano devido ao arrasador avanço do futebol entre os jovens cubanos.

O beisebol segue sendo considerado oficialmente o ''esporte nacional'', entre outros motivos, por sua tradição e porque contou com o apoio de diferentes instâncias do poder.

Mas para ver como o futebol está conquistando os corações dos jovens cubanos, basta percorrer, em um domingo, os bairros ou cidades do país.

Muitos locais carecem da infraestrutura e recursos humanos normalmente dispensados ao beisebol - já para o futebol, basta uma bola para que se possa jogar nas ruas, parques, terrenos baldios e até pastagens do país.

Isaías Agramonte, antigo jogador de futebol formado na Escuela Superior de Deportes do país e atualmente um treinador de crianças, contou à BBC que durante os últimos anos ''o crescimento do futebol em Cuba foi descomunal, nunca tinha se visto algo assim''.

Encontramos Arnold Bueno, de 16 anos, jogando com um grupo de amigos. Ele nos assegurou que entre os meninos de sua idade, ''há mais gente que gosta de futebol do que de beisebol, apesar de que nem todos os municípios tenham campos para se jogar''.

A despeito do pouco incentivo oficial, das poucas quadras que existem e do baixo orçamento, o futebol marcou presença na ilha e os nomes de Messi e Cristiano Ronaldo são sempre mencionados pelos jovens. É comum vê-los com camisetas do Real Madrid ou do Barcelona.

Futebol no cinema

Durante a Copa do Mundo da África do Sul em 2010 havia tanto interesse pelo esporte no país, que salas de cinema foram usadas para transmitir partidas ao vivo. Os jovens lotaram os cinemas para ver os jogos. Eles compareceram envolvidos com as bandeiras das seleções que apoiavam e com os rostos cobertos nas cores dos diferentes países.

Cuba passa em um momento de mudança de gerações, que põe em xeque algumas das tradições culturais do país. O esporte não foge à essa evolução, influenciada também pela globalização e pelo fluxo de informação.

Grupos de até centenas de jovens torcedores do Barcelona e do Real Madri se reuniam para ver partidas gravadas em vídeo por algum amigo estrangeiro que tinha acesso à TV espanhola.

Alguns bares e hotéis aproveitaram o interesse e instalaram televisores com recepção por satélite para transmitir as melhores partidas das ligas europeias de futebol, exigindo, por conta disso, uma taxa de consumação mínima por parte dos clientes.

Pressão popular

Finalmente, a TV cubana cedeu à pressão popular e começou a transmitir as partidas mais importantes do futebol europeu. No entanto, a cobertura dedicada ao beisebol segue sendo maior.

O beisebol conta com seus defensores entre uma geração que hoje ocupa os principais cargos do governo, no Partido Comunista e nos meios de comunicação. São eles que decidem desde os recursos que serão investidos no esporte até o tempo que será dedicado à sua difusão pelos meios de comunicação estatais.

Para muitos, essa política acaba beneficiando o futebol. Pela TV, os cubanos conseguem acompanhar o melhor do futebol mundial, mas só têm acesso à liga nacional de beisebol.

A alternativa seria a transmissão de grandes torneios de beisebol como as ligas dos Estados Unidos, que estão vetadas por pertenceram ''ao inimigo'' e porque muitos jogadores são ''desertores cubanos''.

O veto é tão forte que um documentário filmado em Cuba sobre a equipe de beisebol Industriales está proibido há cinco anos na ilha porque traz entrevistas com jogadores cubanos que hoje jogam nas Grandes Ligas americanas. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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