Ronaldo Schemidt/AFP
Ronaldo Schemidt/AFP

Futebol venezuelano vive dilema devido a apagões recorrentes

Associação de jogadores profissionais solicitou que partidas sejam suspensas quando não houver condições em razão de problemas elétricos ou de falta de água, mas Liga e Federação Venezuelana insistem na manutenção dos jogos em horários diurnos

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 16h07

CARACAS - A ordem da Liga e da Federação Venezuelana (FVF) é jogar, mas os atletas pediram publicamente para que os campeonatos fossem interrompidos devido à falta de condições diante dos recorrentes apagões de luz que o país sofre desde março - nesta semana, o governo decretou um racionamento de energia que durará ao menos 30 dias.

A Associação de Jogadores Profissionais da Venezuela solicitou em comunicado a suspensão das partidas da rodada do último fim de semana onde não houvesse "condições pelos problemas do sistema elétrico, água e/ou outros serviços".

Contudo, todos os compromissos pautados pelo Torneio Apertura 2019 foram disputados, incluindo em cidades como Maracaibo, onde a crise é mais rigorosa. O calendário também segue sem alterações nas próximas datas.

A Liga e a FVF determinaram que os duelos fossem disputados em horários diurnos, mas, na última sexta-feira, o confronto entre Zamora e Lala FC foi marcado para as 18 horas. 

Quando o cronômetro marcava 39 minutos do primeiro tempo no estádio La Carolina de Barinas, no oeste do país, e começava a escurecer, um súbito apagão obrigou a paralisação do jogo.

A partida foi reagendada para o sábado, sendo reiniciada novamente do primeiro minuto e um jogador do Lala, o meia Yorvin González, sofreu uma lesão de ligamento no joelho direito.

Durante outro apagão, iniciou-se uma busca por um centro de saúde que tivesse gerador de energia próprio para receber o atleta. "Foram momentos de angustia", declarou Del Valle Rojas, técnico do clube.

"Não tem luz, não tem água, o jogador não descansa bem (...). É difícil trabalhar nesta situação", lamentou Rojas.

González, de 24 anos, finalmente pôde ser atendido. com a perna engessada, viajou 14 horas pela estrada entre Barinas e Puerto Ordaz ao lado do restante do elenco.

Boicote e temor a punições

O momento de maior tensão aconteceu em 10 de março, quando jogadores do Zulia e do Caracas boicotaram um jogo, se recusando a jogar.

Ao som do apito inicial no estádio Romero de Maracaibo, com os vestiários sem luz ou água, os jogadores ficaram parados em campo durante um minuto. Depois, se limitaram a tocar a bola de lado, sem atacar.

Foi assim durante os 90 minutos de jogo, que, claro, terminou 0 a 0.

"Não há condições para se jogar futebol", escreveu no Twitter o meia Evelio Hernández, uma das referências do Zulia.

Na semana passada, a FVF anulou o jogo e chamou para depor os dois técnicos, Francesco Stifano e Noel Sanvicente, e os dois capitães, Leo Morales e Rubert Quijada.

Uma decisão final sobre o caso não foi emitida, mas fontes nas equipes comentaram que temem que o procedimento termine com punições econômicas e esportivas. A federação deverá ordenar também que a partida seja jogada novamente.

"Não considero humano"

Uma das maiores estrelas do Campeonato Venezuelano, o atacante Richard Blanco, tomou a palavra para pedir que a decisão de continuar jogando fosse reconsiderada.

"Como profissional, não considero humano enfrentar uma equipe que não teve as condições necessárias para se preparar", escreveu nas redes sociais antes da partida de sábado entre sua equipe, Mineros de Guayana, e Caracas. Blanco divulgou fotos e vídeos de instalações escuras no estádio.

O jogo acabou sendo disputado com vitória por 4 a 2 da equipe da capital.

Os apagões também impactam as competições internacionais. Em 7 de março, quando a rede elétrica da Venezuela começou a dar problemas, a partida entre Deportivo Lara e Emelec, do Equador, pela Copa Libertadores, precisou ser adiada para o dia seguinte por um corte de luz na cidade de Barquisimeto. / AFP

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